Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar parapensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa..
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei
> sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz.
Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho De som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade.
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura
especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.
(Rubem Alves)
sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Alguém escreveu o que eu penso sobre o divórcio ser contagioso!
"Se casais fogem de amigos recém-desquitados, é porque separações e divórcios são contagiosos", escreve Contardo Calligaris, psicanalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 22-07-2010.
Eis o artigo.
Muitos recém-separados se queixam (com razão) de que sua relação com os amigos de antes não é mais a mesma. Não é tanto porque, diante de uma separação ou de um divórcio, os amigos se dividiriam em dois times opostos. Isso é raro.
Mais frequentemente, os casais que eram próximos do casal que se separou tendem a evitar qualquer um dos recém-separados.
Às vezes, os desquitados entendem seu afastamento como uma condenação moral por eles terem se separado. Isso lhes resulta intolerável, vindo de amigos que, em muitos casos, foram confidentes ao longo do drama da separação.
Outras vezes, os desquitados entendem que os casais de amigos, ao se afastarem deles, protegem-se contra alguma tentação erótica. É o cúmulo, eles dizem: se a simples aparição de um desquitado ou de uma desquitada é suficiente para ameaçar o casamento, talvez devessem fazer como a gente, separar-se.
Uma pesquisa recente, de R. McDermott, J. Fowler e N. Christakis, mostra que os casais talvez tenham alguma razão quando decidem fugir dos amigos desquitados, pois separações e divórcios não são apenas dramas privados (que afetam o casal e seus rebentos), mas são também fenômenos coletivos porque, curiosamente, eles são contagiosos.
Os autores da pesquisa usaram o banco de dados de um estudo (originalmente sobre o risco de doença cardíaca) que acompanha a população de Framingham, EUA, desde 1948. Para a segunda geração de pesquisados (5.124 indivíduos), entre outras informações, continuam sendo anotadas, a cada dois anos, as diferentes listas dos que cada um identifica como seus amigos, parentes, vizinhos e colegas.
Obviamente, muitos dos que são indicados nas listas fazem, eles mesmos, parte da amostra da pesquisa.
Recortando os dados, os autores constataram que as chances de um indivíduo se divorciar aumentam em 75% quando ele se relaciona diretamente com alguém que está se divorciando ou acaba de se divorciar. Quando o desquitado está a dois graus de separação (ou seja, é o amigo de um amigo), o efeito é menor, mas permanece: as chances de nosso indivíduo se divorciar aumentam em 33%.
Será que a causa disso seria a ruína que a sedução erótica exercida pelos desquitados levaria ao casamento dos outros? Ou será que os próximos que se divorciam nos parecem mais alegres e nos tentam com a imagem de sua nova vida? Uma leitura atenta da pesquisa permite afinar a explicação.
De fato, o aumento de 75%, que mencionei antes, é a média dos efeitos diferentes produzidos pelo divórcio de amigos, parentes, colegas e vizinhos. Quando o "amigo" de alguém se divorcia, a probabilidade de esse alguém também se divorciar dentro de dois anos aumenta em 147%. E, no caso do divórcio de parentes, colegas e vizinhos, quase nada acontece. Em outras palavras, o "contágio" do divórcio funciona mesmo entre amigos e, fato significativo, numa direção apenas: o divórcio se transmite de quem é identificado como amigo para quem assim o identifica. Explico.
As relações de amizade registradas pela pesquisa são, em grande parte, não recíprocas: os que fulano indica como seus amigos não indicam fulano como amigo deles. Entende-se que muitos identificam como "amigos" não seus reais companheiros de cada dia, mas indivíduos que eles admiram, que eles gostariam que fossem seus amigos.
Esse tipo de "amigo", idealizado (e duvidoso), é sempre o porta-estandarte de nossos devaneios. Se ele se divorciar, será, automaticamente, para nós, o exemplo (tentador) da felicidade livre e solteira à qual receamos ter renunciado.
Pouco importa que, eventualmente, o tal amigo lamente amargamente a solidão; preferiremos pensar que ele está vivendo um de nossos sonhos frustrados. Invejá-lo é a revanche contra o que não dá certo (e sempre há algo que não dá certo) em nosso casamento. Invejá-lo e, quem sabe, querer imitá-lo.
Moral da história. Para preservar seu casamento, não é preciso afastar seus amigos recém-separados. Basta (e é mais saudável) parar de identificar como amigos indivíduos que não incluiriam você na mesma categoria
Eis o artigo.
Muitos recém-separados se queixam (com razão) de que sua relação com os amigos de antes não é mais a mesma. Não é tanto porque, diante de uma separação ou de um divórcio, os amigos se dividiriam em dois times opostos. Isso é raro.
Mais frequentemente, os casais que eram próximos do casal que se separou tendem a evitar qualquer um dos recém-separados.
Às vezes, os desquitados entendem seu afastamento como uma condenação moral por eles terem se separado. Isso lhes resulta intolerável, vindo de amigos que, em muitos casos, foram confidentes ao longo do drama da separação.
Outras vezes, os desquitados entendem que os casais de amigos, ao se afastarem deles, protegem-se contra alguma tentação erótica. É o cúmulo, eles dizem: se a simples aparição de um desquitado ou de uma desquitada é suficiente para ameaçar o casamento, talvez devessem fazer como a gente, separar-se.
Uma pesquisa recente, de R. McDermott, J. Fowler e N. Christakis, mostra que os casais talvez tenham alguma razão quando decidem fugir dos amigos desquitados, pois separações e divórcios não são apenas dramas privados (que afetam o casal e seus rebentos), mas são também fenômenos coletivos porque, curiosamente, eles são contagiosos.
Os autores da pesquisa usaram o banco de dados de um estudo (originalmente sobre o risco de doença cardíaca) que acompanha a população de Framingham, EUA, desde 1948. Para a segunda geração de pesquisados (5.124 indivíduos), entre outras informações, continuam sendo anotadas, a cada dois anos, as diferentes listas dos que cada um identifica como seus amigos, parentes, vizinhos e colegas.
Obviamente, muitos dos que são indicados nas listas fazem, eles mesmos, parte da amostra da pesquisa.
Recortando os dados, os autores constataram que as chances de um indivíduo se divorciar aumentam em 75% quando ele se relaciona diretamente com alguém que está se divorciando ou acaba de se divorciar. Quando o desquitado está a dois graus de separação (ou seja, é o amigo de um amigo), o efeito é menor, mas permanece: as chances de nosso indivíduo se divorciar aumentam em 33%.
Será que a causa disso seria a ruína que a sedução erótica exercida pelos desquitados levaria ao casamento dos outros? Ou será que os próximos que se divorciam nos parecem mais alegres e nos tentam com a imagem de sua nova vida? Uma leitura atenta da pesquisa permite afinar a explicação.
De fato, o aumento de 75%, que mencionei antes, é a média dos efeitos diferentes produzidos pelo divórcio de amigos, parentes, colegas e vizinhos. Quando o "amigo" de alguém se divorcia, a probabilidade de esse alguém também se divorciar dentro de dois anos aumenta em 147%. E, no caso do divórcio de parentes, colegas e vizinhos, quase nada acontece. Em outras palavras, o "contágio" do divórcio funciona mesmo entre amigos e, fato significativo, numa direção apenas: o divórcio se transmite de quem é identificado como amigo para quem assim o identifica. Explico.
As relações de amizade registradas pela pesquisa são, em grande parte, não recíprocas: os que fulano indica como seus amigos não indicam fulano como amigo deles. Entende-se que muitos identificam como "amigos" não seus reais companheiros de cada dia, mas indivíduos que eles admiram, que eles gostariam que fossem seus amigos.
Esse tipo de "amigo", idealizado (e duvidoso), é sempre o porta-estandarte de nossos devaneios. Se ele se divorciar, será, automaticamente, para nós, o exemplo (tentador) da felicidade livre e solteira à qual receamos ter renunciado.
Pouco importa que, eventualmente, o tal amigo lamente amargamente a solidão; preferiremos pensar que ele está vivendo um de nossos sonhos frustrados. Invejá-lo é a revanche contra o que não dá certo (e sempre há algo que não dá certo) em nosso casamento. Invejá-lo e, quem sabe, querer imitá-lo.
Moral da história. Para preservar seu casamento, não é preciso afastar seus amigos recém-separados. Basta (e é mais saudável) parar de identificar como amigos indivíduos que não incluiriam você na mesma categoria
Religião não evita fim do casamento
O que Deus uniu o homem separa. Um cruzamento entre dados de estado conjugal e religião realizado pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp a pedido da Folha mostra que a fé não segura casamentos.
A reportagem é de Hélio Schwartsman e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 22-07-2010.
A proporção das mulheres separadas, desquitadas ou divorciadas de cada igreja é muito similar à distribuição das crenças pela população.
A base utilizada foi a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, de 2006, do Ministério da Saúde e abarca mulheres em idade reprodutiva (entre 15 e 49 anos).
Se é relativamente fácil constatar que a fé não mantém casais unidos, bem mais difícil é descobrir o que o faz.
Segundo a pesquisadora Joice Melo Vieira, que cruzou os dados, estudos no Brasil e no exterior mostram que a preocupação é estar em relações satisfatórias. Como a separação já não é tão estigmatizada, o fim da união é sempre uma possibilidade quando as coisas vão mal.
No final, relata Vieira, o que faz casais à beira da separação pensarem duas vezes são a situação dos filhos e a questão financeira. Como hoje mais mulheres trabalham, a dependência econômica não segura mais o casamento. Já os filhos o fazem apenas por tempo limitado.
Estudos europeus apontam que durante a gravidez e o primeiro ano de vida da criança é mais baixa a chance de os pais se separarem.
Mas, à medida que os filhos crescem, esse deixa de ser um fator importante, e a probabilidade de separação volta a ser igual à de casais que nunca tiveram filhos.
RELAÇÃO IGUALITÁRIA
Embora não haja uma receita para o sucesso da união, existem fatores preponderantes. O mais eficiente é a distribuição das tarefas familiares e domésticas entre o homem e a mulher. Quanto mais igualitária for, menores são os riscos de ruptura.
A maioria dos religiosos ouvidos pela Folha não se surpreendeu com os dados.
Para o padre Eduardo Henriques, a religião "entra em diálogo com outros elementos da cultura e há níveis diferentes de adesão à fé". Há desde o sujeito que se casa na igreja só para contentar a família até os que realmente creem no sacramento.
O pastor batista Adriano Trajano é mais veemente: "Religião não segura nada. O casamento deve estar seguro por amor, confiança, caráter e dedicação. Nenhuma dessas virtudes é conferida pela religião. O indivíduo precisa ser educado nelas".
Marcos Noleto, teólogo adventista, diz que o abismo entre teoria e prática vai além do casamento: "Em números redondos: só 20% são dizimistas; 30% frequentam os cultos do meio de semana".
Uma exceção parcial é o pastor luterano Waldemar Garcia Jr.: "As estatísticas podem até afirmar algo diferente, mas vejo que a religião auxilia na manutenção saudável das relações. Temos um trabalho de aconselhamento, com função preventiva".
A reportagem é de Hélio Schwartsman e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 22-07-2010.
A proporção das mulheres separadas, desquitadas ou divorciadas de cada igreja é muito similar à distribuição das crenças pela população.
A base utilizada foi a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, de 2006, do Ministério da Saúde e abarca mulheres em idade reprodutiva (entre 15 e 49 anos).
Se é relativamente fácil constatar que a fé não mantém casais unidos, bem mais difícil é descobrir o que o faz.
Segundo a pesquisadora Joice Melo Vieira, que cruzou os dados, estudos no Brasil e no exterior mostram que a preocupação é estar em relações satisfatórias. Como a separação já não é tão estigmatizada, o fim da união é sempre uma possibilidade quando as coisas vão mal.
No final, relata Vieira, o que faz casais à beira da separação pensarem duas vezes são a situação dos filhos e a questão financeira. Como hoje mais mulheres trabalham, a dependência econômica não segura mais o casamento. Já os filhos o fazem apenas por tempo limitado.
Estudos europeus apontam que durante a gravidez e o primeiro ano de vida da criança é mais baixa a chance de os pais se separarem.
Mas, à medida que os filhos crescem, esse deixa de ser um fator importante, e a probabilidade de separação volta a ser igual à de casais que nunca tiveram filhos.
RELAÇÃO IGUALITÁRIA
Embora não haja uma receita para o sucesso da união, existem fatores preponderantes. O mais eficiente é a distribuição das tarefas familiares e domésticas entre o homem e a mulher. Quanto mais igualitária for, menores são os riscos de ruptura.
A maioria dos religiosos ouvidos pela Folha não se surpreendeu com os dados.
Para o padre Eduardo Henriques, a religião "entra em diálogo com outros elementos da cultura e há níveis diferentes de adesão à fé". Há desde o sujeito que se casa na igreja só para contentar a família até os que realmente creem no sacramento.
O pastor batista Adriano Trajano é mais veemente: "Religião não segura nada. O casamento deve estar seguro por amor, confiança, caráter e dedicação. Nenhuma dessas virtudes é conferida pela religião. O indivíduo precisa ser educado nelas".
Marcos Noleto, teólogo adventista, diz que o abismo entre teoria e prática vai além do casamento: "Em números redondos: só 20% são dizimistas; 30% frequentam os cultos do meio de semana".
Uma exceção parcial é o pastor luterano Waldemar Garcia Jr.: "As estatísticas podem até afirmar algo diferente, mas vejo que a religião auxilia na manutenção saudável das relações. Temos um trabalho de aconselhamento, com função preventiva".
segunda-feira, 5 de julho de 2010
XXI Simpósio Brasileiro de Informática na Educação 23 a 26 de novembro de 2010
XXI Simpósio Brasileiro de Informática na Educação
23 a 26 de novembro de 2010
João Pessoa, PB
http://www.sbie.org.br
http://www.ccae.ufpb.br/sbie2010/
23 a 26 de novembro de 2010
João Pessoa, PB
http://www.sbie.org.br
http://www.ccae.ufpb.br/sbie2010/
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Pobreza sexual
Como psicóloga e terapeuta familiar, me impressiona o número cada vez maior de relatos de mulheres cristâs que se casam e não querem saber de sexo, para o desespero de maridos igualmente cristãos. Os bem intencionados que se guardaram para o casamento sente-se duplamente traídos. O sexo condicional - como base de trocas e barganhas, liquida qualquer possibilidade de intimidade existencial. Alguns enveredam para o sexo digital/virtual, o que dentona ainda mais a relação familiar. Reduzidos ao objetos sexuais, são escalados para o papel de procriadores, quando as companheiras resolvem ser mães, não sendo raros os casos onde a mulher para de tomar a pílula sem avisar o parceiro. Mais uma vez traídos, pois se tornam pais sem ter podido desejar e se alegrar, retiram-se emocionalmente da relação, e passam a desempenhar com mal disfaçado enfado seu título de marido. A paternidade que poderia resultar num resgate da masculinidade é manipulada ou usurpada num contexto de mistura dos papéis na espiral da vida familiar. Avôs e avós que solitários/as temem envelhecer, fornecem não mais o apoio e sabedoria, pois reduzem a infantilidade seus jovens filhos retirando-lhes a capacidade de errar, acertar e aprender. As igrejas ativistas, ufanistas e prósperas ajudam a disfarçar o mal cheiro com programações editadas que em nada favorecem um real confronto com a situação e uma possível busca de melhoria.
Não sou pessimista, acredito no poder de Deus e acredito que se pode sim, viver melhor em família. Trabalho muito neste sentido. Só não acredito em Papai Noel e soluções mágicas.
Viver a dois, ou em família requer boa dose de altruísmo, que não por acaso, é palavra bem pouco ouvida ou atitude pouco vivida nestes tempos tão ego-istas.
Não sou pessimista, acredito no poder de Deus e acredito que se pode sim, viver melhor em família. Trabalho muito neste sentido. Só não acredito em Papai Noel e soluções mágicas.
Viver a dois, ou em família requer boa dose de altruísmo, que não por acaso, é palavra bem pouco ouvida ou atitude pouco vivida nestes tempos tão ego-istas.
domingo, 20 de junho de 2010
Prosa do poeta leigo, por Roberto Diamanso
PROSA DO POETA LEIGO
Roberto Diamanso
publicado no Livro Uma criança os guiará, Ultimato, 2010
Se prosa é o curso livre do discurso
livre de pretensões, livre da métrica,
escrevo estas minhas, poucas linhas, retas.
Mas se não é o verso, não seja inverso
e dele, ausência completa,
não vulgar, trivial, ou comum,
mas sem grande elevação
de fácil compreensão
aos que se debruçarem sobre ela.
Não sei se é possível a uma prosa
não ser também uma conversa
e dessa temo alguns aspectos,
conotações aos quais nos arremessa,
a saber: “isto é conversa”, “palavreado”,
“bafo” de alguém, que não tem
a menor intenção de cumprir;
segundo Aurélio expressa.
Conversar é versar com
e eu estou só, versando
versando só assim
quiçá serei poeta
mas nem isso me atrevo
dizer que sou profeta,
sejamos pois pastores,
quem quer que ouça
e reconheça a voz
do pastor de todos nós
que amar aos pequeninos
também nos inquieta.
No campo da prosa em nível semântico
encontrei, prático, positivo,
este, baseado em experiências
ou fatos que não admitem dúvidas,
fala consoante a realidade,
aquele, perito experiente,
que por sua capacidade de agir,
pode ir e conduzir
por onde é transitável,
mostrar a rota certa.
Somos “os do Caminho”,
discípulos daquele que disse,
“Eu sou o caminho”
que pouco escreveu,
mas que muito imprimiu,
não em papel e com tinta,
mas nas mentes e corações
daqueles que mais tarde declararam
não vai jamais ninguém nos demover
o que vimos e ouvimos,
não podemos deixar de dizer
para não desvanecer,
é impressão perpétua.
Este é o caminho para não querer,
outro “vem a nós”
se não o ver,
vir a nós o seu reino.
Reino que não é outro, se não
o reino dos pequeninos pois
dos tais é o reino dos céus,
o Mestre disse aos seus
deixem que venham a mim
que ninguém os impeça.
Senta-te para uma prosa
diga-me se és sabedor
trazes viola prangente
sendo tu seu tangedor
de mãos hábeis, mão-tenente
de Jesus o bom pastor
dou-te o texto, vês o ensino?
Em que verso começou?
Cantador
Achei no Livro Sagrado
Mateus dezenove seis
que bom que me deste vez
ser teu co-laborador.
Nesta obra que tanto estimo
vívido a viver este ensino
que antes de haver menino,
macho e fêmea os criou.
Poeta prosador
Sendo assim o que Deus juntou
não é bom que esteja só
ninguém desfaça este nó
daquele que a si nos atou.
Cantador
Sou livre e sem amarras
comprado pra liberdade
mas a minha felicidade
é estar ligado aquela
a quem quando eu disse vamos
de pronto disse vambóra
doravante o que outrora fomos,
não seremos mais.
Nossos corações?
continuam sendo dois,
dois vassalos
levando numa liteira
vida inteira
em função de nós
que não se desatam
estes que demos em nós.
E tu poeta ancião?
Teus cabelos encanecidos
por tantos dias vividos
teria desvanecido,
o prazer da companhia
daquela que amaste um dia?
Tens ainda poesia,
prosa, verso, uma canção?
Poeta prosador
Eu quero me mirar
na água da minha cisterna
mulher da minha mocidade
libido, saudade,
sede da minha gazela.
Obrigado Senhor, pelo meu amor,
o beijo, o doce, os seios dela.
Sentarmos a mesa para comer o grão,
sairmos juntos plantando a semente
cuidar da vida das mudas de gente
que brotam de nós.
E outras mudas de gente,
filhos da alteridade
a soltas pela cidade
onde a orfandade os levou.
Estenda-se nosso cuidado
aos meninos abandonados
correndo riscos diversos
que dos pais estão dispersos
como ovelhas sem pastor.
Quem não se fizer menino
capaz de com eles brincar
e crer no que o Pai promete
não perde por esperar
por não esperar, travesso
se as avessas, tropeço,
se precipita no mar.
Imóvel atado a pedra
ou na barriga de um peixe
se pedir que Deus lhe deixe
se viver, se ele deixar,
quem viver verá mudança.
Quem é este que canta e dança?
Rodeado de crianças
das quais se pôs a cuidar.
Cantador
Pois não, eis-me aqui,
se é pra cuidar de meninos
pode me chamar,
que eu vou.
Sei que tem beira de estrada
pedra que eu levei topada
tem também terra molhada
lavoura toda formada
que eu já vi
pé com botãozinho e flor.
Vamo simbóra
pra nossa roça
cuidar de brotos e mudas
pra quando o amanhã chegar,
florescer e dar frutos bons.
Mas quanto àqueles meninos
com pai vivo
e mãe bulindo
todos ao relento dormindo
carentes do mesmo amor.
Poeta prosador
Vamos levá-los para a casa
o pai, a mãe, o filho, a filha
se temos toda a família
só falta o que lhes faltou.
Cantador
Para o cancionista
o amor é matéria-prima
ainda que não haja rima
e que eu até perca o tom
se não me faltar este dom
sobrosso nenhum restou.
Se o sobrosso é o medo
na linguagem nordestina
e é a Bíblia que ensina
que o amor é caridade
não será temeridade
pois Deus por sua bondade
um dia nos adotou.
Jesus seu Filho Unigênito
que agora é Filho Primeiro
correu risco verdadeiro
até a morte enfrentou.
Nele todo homem é filho
filho que Deus adotou,
nele Deus é filho adotivo de um homem
o qual digo agora o nome
José que Jacó gerou.
Roberto Diamanso nasceu no Sítio Paus Viola, em Taquarana, Alagoas. Cresceu nas casas de farinhas onde escutou histórias encantadas contadas e cantadas por gente simples, de onde tira a inspiração para seus poemas e músicas. É músico, poeta, pastor e cuidador de crianças.
Roberto Diamanso
publicado no Livro Uma criança os guiará, Ultimato, 2010
Se prosa é o curso livre do discurso
livre de pretensões, livre da métrica,
escrevo estas minhas, poucas linhas, retas.
Mas se não é o verso, não seja inverso
e dele, ausência completa,
não vulgar, trivial, ou comum,
mas sem grande elevação
de fácil compreensão
aos que se debruçarem sobre ela.
Não sei se é possível a uma prosa
não ser também uma conversa
e dessa temo alguns aspectos,
conotações aos quais nos arremessa,
a saber: “isto é conversa”, “palavreado”,
“bafo” de alguém, que não tem
a menor intenção de cumprir;
segundo Aurélio expressa.
Conversar é versar com
e eu estou só, versando
versando só assim
quiçá serei poeta
mas nem isso me atrevo
dizer que sou profeta,
sejamos pois pastores,
quem quer que ouça
e reconheça a voz
do pastor de todos nós
que amar aos pequeninos
também nos inquieta.
No campo da prosa em nível semântico
encontrei, prático, positivo,
este, baseado em experiências
ou fatos que não admitem dúvidas,
fala consoante a realidade,
aquele, perito experiente,
que por sua capacidade de agir,
pode ir e conduzir
por onde é transitável,
mostrar a rota certa.
Somos “os do Caminho”,
discípulos daquele que disse,
“Eu sou o caminho”
que pouco escreveu,
mas que muito imprimiu,
não em papel e com tinta,
mas nas mentes e corações
daqueles que mais tarde declararam
não vai jamais ninguém nos demover
o que vimos e ouvimos,
não podemos deixar de dizer
para não desvanecer,
é impressão perpétua.
Este é o caminho para não querer,
outro “vem a nós”
se não o ver,
vir a nós o seu reino.
Reino que não é outro, se não
o reino dos pequeninos pois
dos tais é o reino dos céus,
o Mestre disse aos seus
deixem que venham a mim
que ninguém os impeça.
Senta-te para uma prosa
diga-me se és sabedor
trazes viola prangente
sendo tu seu tangedor
de mãos hábeis, mão-tenente
de Jesus o bom pastor
dou-te o texto, vês o ensino?
Em que verso começou?
Cantador
Achei no Livro Sagrado
Mateus dezenove seis
que bom que me deste vez
ser teu co-laborador.
Nesta obra que tanto estimo
vívido a viver este ensino
que antes de haver menino,
macho e fêmea os criou.
Poeta prosador
Sendo assim o que Deus juntou
não é bom que esteja só
ninguém desfaça este nó
daquele que a si nos atou.
Cantador
Sou livre e sem amarras
comprado pra liberdade
mas a minha felicidade
é estar ligado aquela
a quem quando eu disse vamos
de pronto disse vambóra
doravante o que outrora fomos,
não seremos mais.
Nossos corações?
continuam sendo dois,
dois vassalos
levando numa liteira
vida inteira
em função de nós
que não se desatam
estes que demos em nós.
E tu poeta ancião?
Teus cabelos encanecidos
por tantos dias vividos
teria desvanecido,
o prazer da companhia
daquela que amaste um dia?
Tens ainda poesia,
prosa, verso, uma canção?
Poeta prosador
Eu quero me mirar
na água da minha cisterna
mulher da minha mocidade
libido, saudade,
sede da minha gazela.
Obrigado Senhor, pelo meu amor,
o beijo, o doce, os seios dela.
Sentarmos a mesa para comer o grão,
sairmos juntos plantando a semente
cuidar da vida das mudas de gente
que brotam de nós.
E outras mudas de gente,
filhos da alteridade
a soltas pela cidade
onde a orfandade os levou.
Estenda-se nosso cuidado
aos meninos abandonados
correndo riscos diversos
que dos pais estão dispersos
como ovelhas sem pastor.
Quem não se fizer menino
capaz de com eles brincar
e crer no que o Pai promete
não perde por esperar
por não esperar, travesso
se as avessas, tropeço,
se precipita no mar.
Imóvel atado a pedra
ou na barriga de um peixe
se pedir que Deus lhe deixe
se viver, se ele deixar,
quem viver verá mudança.
Quem é este que canta e dança?
Rodeado de crianças
das quais se pôs a cuidar.
Cantador
Pois não, eis-me aqui,
se é pra cuidar de meninos
pode me chamar,
que eu vou.
Sei que tem beira de estrada
pedra que eu levei topada
tem também terra molhada
lavoura toda formada
que eu já vi
pé com botãozinho e flor.
Vamo simbóra
pra nossa roça
cuidar de brotos e mudas
pra quando o amanhã chegar,
florescer e dar frutos bons.
Mas quanto àqueles meninos
com pai vivo
e mãe bulindo
todos ao relento dormindo
carentes do mesmo amor.
Poeta prosador
Vamos levá-los para a casa
o pai, a mãe, o filho, a filha
se temos toda a família
só falta o que lhes faltou.
Cantador
Para o cancionista
o amor é matéria-prima
ainda que não haja rima
e que eu até perca o tom
se não me faltar este dom
sobrosso nenhum restou.
Se o sobrosso é o medo
na linguagem nordestina
e é a Bíblia que ensina
que o amor é caridade
não será temeridade
pois Deus por sua bondade
um dia nos adotou.
Jesus seu Filho Unigênito
que agora é Filho Primeiro
correu risco verdadeiro
até a morte enfrentou.
Nele todo homem é filho
filho que Deus adotou,
nele Deus é filho adotivo de um homem
o qual digo agora o nome
José que Jacó gerou.
Roberto Diamanso nasceu no Sítio Paus Viola, em Taquarana, Alagoas. Cresceu nas casas de farinhas onde escutou histórias encantadas contadas e cantadas por gente simples, de onde tira a inspiração para seus poemas e músicas. É músico, poeta, pastor e cuidador de crianças.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Misericórdia
Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo", escreve Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 17-05-2010. PUBLICAÇÃO IHU
Eis o artigo.
É comum se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 - 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.
Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo "perdão" porque, hoje em dia, ela está na moda.
"Meu Deus, como amo a moda", dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, "ensina-se" cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso. Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser "professor de Cabala", cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.
Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata. Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.
Um dos "galhos" da árvore da cabala é chamado "Hod", que é traduzido por especialistas em história da cabala como "agradecimento".
É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.
Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: "Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?".
Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra "demônio" como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.
Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.
Muitos localizam esta misericórdia na mesma "árvore", como sendo "Hesed" (as vezes também traduzida como "piedade"). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o "preferido de Deus".
Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, "Bereshit" (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia.
Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou "Din", outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.
Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o "investimento".
Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.
Deus pensa e decide a nosso favor.
Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.
Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.
Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.
Eis o artigo.
É comum se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 - 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.
Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo "perdão" porque, hoje em dia, ela está na moda.
"Meu Deus, como amo a moda", dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, "ensina-se" cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso. Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser "professor de Cabala", cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.
Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata. Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.
Um dos "galhos" da árvore da cabala é chamado "Hod", que é traduzido por especialistas em história da cabala como "agradecimento".
É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.
Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: "Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?".
Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra "demônio" como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.
Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.
Muitos localizam esta misericórdia na mesma "árvore", como sendo "Hesed" (as vezes também traduzida como "piedade"). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o "preferido de Deus".
Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, "Bereshit" (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia.
Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou "Din", outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.
Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o "investimento".
Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.
Deus pensa e decide a nosso favor.
Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.
Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.
Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.
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