quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pensamento

"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz." Clarice Lispector.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal: um ano sem mãe

Fiquei pensando que naquela noite, quando Jesus nasceu.
Deve ter sido uma noite muito diferente!
Com tanto anjo se movimentando, as pessoas devem ter sentido que algo muito extrordiná'rio estava acontecendo.
Deve ter sido uma visão e tanto, a que os pastores tiveram!!
Coral de anjos, milhares deles!!
Os anjos cantaram entusiasmados, eles sabiam o que significava este nascimento: a possibilidade de redençao de todos homens e mulheres!!
Deus veio, em pessoa, viver entre nós!
Veio na forma de um bebê, filho de uma mulher adolescente, que disponibilizou seu ventre e sua honra.
Uma jovem mulher que acreditou nas palavras de um anjo.
Um casal pobre acolheu o Filho de Deus, com alegria e simplicidade.
Pastores anônimos testemunharam o evento, sem ter a possibilidade sequer de dimensionar o que se passava...
Lembrei da festa de Babete!
Não temos como calcular o quanto isso custou, eu pelo menos nao sei calcular preço de filho...
Tentei imaginar a cena:
Como será que Deus Pai se despediu de Deus Filho, sabendo que ele nao vinha fazer um estágio legal aqui,
mas vinha para se despojar de todo seu poder e no final, sofrer bárbaramente e morrer numa cruz??

Isso me tocou profundamente nestes dias:
Temos um Deus sabe o que é sofrer.
Hoje faz um ano que minha mae faleceu.
estou triste, mas posso dizer:

Abençoado Natal a todos e todas, na consolaçao do que significa
Emanuel, Deus conosco.

bjs.

Roseli

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O que é consolo?

Um garoto de 4 anos tinha um vizinho idoso ao lado, cuja esposa havia falecido recentemente. Ao vê-lo chorar, o menino foi para o quintal dele, e simplesmente sentou-se em seu colo. Quando a mãe perguntou a ele o que havia dito ao velhinho, ele respondeu: - Nada. Só o ajudei a chorar.

Suicidios no RS -publicado no IHU - Unisinos - Importante saber!

18/12/2009
''Os números de suicídios no Rio Grande do Sul assustam''. Entrevista especial com Ricardo Nogueira.

O nível de suicídios no Rio Grande do Sul é alarmante, principalmente nas cidades interioranas. Os municípios de Candelária e Venâncio Aires têm índices de suicídio entre os maiores do mundo. A pesquisa “Promoção da vida e prevenção do suicídio no RS”, dissertação de mestrado do médico psiquiatra, Ricardo Nogueira, analisou as quatro cidades gaúchas com maior número de casos de suicídio. O estudo foi patrocinado pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, através do Centro de Vigilância em Saúde e do Programa de Prevenção à Violência. Sobre os resultados constatados e as peculiaridades dos casos no Estado, Nogueira conversou, por telefone, com a IHU On-Line. O psiquiatra fala sobre os principais motivos dos suicídios no RS, o perfil do suicida e o tipo de ajuda que este necessita. “Quase 100% dos pacientes que foram ao óbito através do suicídio procuraram ajuda uns seis meses antes. (...) O problema é que falta um treinamento, não só na área de saúde, mas na rede de segurança e educação”, frisa. Sobre este preparo no atendimento às vítimas e prevenção dos casos, Nogueira aborda os projetos desenvolvidos pela pesquisa que participou, como um manual de prevenção, e lamenta que mídias, como a Internet, atrapalhem o processo de cuidado para com indivíduos com tendências suicidas. “Uma orientação seria, ao invés de suicídio, falar da promoção da vida. Mas há uma contradição, pois sempre, em qualquer situação, há um outro lado, que, neste caso, é o estímulo de algumas mídias, como a Internet, uma área muito perigosa”, garante.

Ricardo Nogueira é mestrando em saúde da família pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Coletiva (CEPES) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e atua como médico psiquiatra.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as peculiaridades do RS, em comparação aos outros estados brasileiros, no que diz respeito aos dados que o senhor apresenta sobre os casos de suicídios?

Ricardo Nogueira – O que mais chama a atenção é o número de casos. O Rio Grande do Sul, em relação ao Brasil, tem um número muito maior de suicídios que os outros estados. Existem três cidades com os maiores níveis do mundo, e existem pequenas cidades que têm números muito maiores. O que assusta é que, até hoje, o número de suicídios é maior entre os idosos e as pessoas mais velhas, mesmo havendo uma diminuição de suicídios nesta faixa etária e um aumento entre os mais jovens. Em Porto Alegre, os números têm nos assustado muito porque a maior incidência é entre os jovens na faixa dos 15 aos 29 anos. Na avaliação que fizemos, há uma progressão epidemiológica e uma tendência crescente nos números. Isso nos deixa muito preocupados. Analisamos esses números com epidemiologistas, técnicos e com profissionais da nossa área que dizem exatamente o que nossa pesquisa aponta: que há uma urgência de se ter um programa de prevenção ao suicídio.

O que temos até agora são constatações e diagnósticos, então nós temos que partir imediatamente para o combate. E fazer isso como foi feito na Suécia, Dinamarca, Noruega, Hungria e em Israel, aplicando-se inquéritos, pesquisas e entrevistas com sobreviventes, aqueles que tentaram suicídio e não conseguiram, e entre seus familiares, porque se constatou que o suicídio é um problema familiar, existem famílias que têm essa tradição do suicídio. Quase 100% dos pacientes que foram ao óbito através do suicídio procuraram ajuda uns seis meses antes na rede, nas Unidades Básicas de Saúde, nos Capes, em consultórios particulares, em serviços de emergência ou pronto-socorros. O problema é que falta um treinamento, e, por isso, estamos propondo e criando um manual de prevenção ao suicídio para ser aplicado a nível dos agentes comunitários de saúde, dos profissionais das Unidades Básicas, dos Capes e dos hospitais, ou seja, em toda a rede, não só na de saúde, mas na rede de segurança.

Muitas vezes, os bombeiros, a Brigada Militar e a Polícia Federal é que são chamados para dar esse atendimento. É preciso também um treinamento na área social, nas secretarias de assistência social e na área de educação, pois, os sintomas aparecem na escola, nas atitudes dos pacientes. A maioria dos pacientes que vão ao óbito através da tentativa de suicídio já está em algum tipo de tratamento médico, já teve alguma doença psiquiátrica ou é viciada em álcool e drogas, como o crack. Inclusive, Porto Alegre, e Curitiba, são as duas capitais do Brasil onde aumenta cada vez mais o número de suicídios entre jovens, na faixa etária dos 15 aos 29, uma faixa que chama a atenção por causa do uso dessas drogas. Estamos sofrendo no Rio Grande do Sul uma epidemia do uso do crack, então ainda não temos uma comprovação científica fidedigna. Nossa pesquisa vai partir para esse viés também, para analisar a associação da droga com o suicídio. Queremos aprofundar isso.

Temos outro problema por sermos vizinhos do Uruguai, um dos países que tem mais suicídio no mundo. Inclusive foi lá o Congresso Mundial de Prevenção ao Suicídio onde apresentamos nosso trabalho. Há um chamado contágio nas cidades fronteiriças e é preciso se pensar nisso. Dizemos que o trabalho de prevenção ao suicídio é de uma vida toda.

IHU On-Line – E que tipo de ajuda o suicida quer?

Ricardo Nogueira – As pessoas têm algumas dificuldades. Por exemplo, na nossa pesquisa, existem dois dados que não aparecem em nenhum outro tipo de investigação, são os dados que conseguimos através da Secretaria de Segurança, que tem um banco de dados excelente. O que chama a atenção é que essas pessoas que se suicidaram, um grande número delas, eram vítimas ou tinham feito boletins de ocorrência contra outras pessoas. Não é normal, por exemplo, uma pessoa ter vinte ocorrências de delitos ou transtornos no trânsito. Ter um transtorno, uma multa ou um boletim de ocorrência, é normal, mas vinte, trinta ou quarenta, não é. Estas pessoas estão com dificuldades na sua vida pessoal, afetiva ou econômica, e procuram uma solução. Muitas vezes, na cabeça da pessoa, o suicídio seria uma saída para acabar com seu sofrimento. A pessoa não suporta mais a situação que está passando e acha que a única saída realmente seria morrer. O que estamos apontando é um treinamento para as equipes médicas de saúde e da área social, terapeutas e enfermeiros, e todas as equipes multiprofissionais, para que possam propor e ofertar o atendimento, o acolhimento e o tratamento desse paciente.

Nossa ideia é trazer esses instrumentos, aplicados na Suécia, Noruega, Hungria e Israel, que foram traduzidos para o português e estão validados no Brasil. Temos alguns desses instrumentos que foram validados em Campinas, em São Paulo, e o trabalho de pesquisa lá mostrou que diminuiu em cinco vezes o número das tentativas de suicídio. As pessoas que têm uma ideação suicida fazem várias tentativas, na maioria das vezes, elas não morrem na primeira. O intuito desse instrumento é fazer com que a pessoa prorrogue o tempo o máximo possível entre uma tentativa e outra. O mais comum é uma pessoa tentar o suicídio hoje, e, se não for bem sucedida, tentar novamente em trinta dias, se não for bem sucedida, novamente, provavelmente irá tentar dentro de 180 dias, seis meses. Então, nesse interregno, é óbvio que ela precisa ter tratamento, tem que ter cuidado e a prevenção a novas tentativas. Aí eu digo e afirmo que há tratamento às tentativas e prevenção. Outra constatação: o risco maior é entre pessoas que já tentaram anteriormente e em pessoas que têm familiares que já cometeram suicídio. Nosso foco fica menor, e então se pode trabalhar focado naquelas pessoas que têm um maior risco.

IHU On-Line – Quais foram os quatro municípios estudados e porque esses municípios foram escolhidos para essa pesquisa?

Ricardo Nogueira – Foram Santa Cruz do Sul, Candelária, Venâncio Aires e São Lourenço do Sul. Foram escolhidos porque são municípios com uma população média, pela questão logística e pela incidência e prevalência. Entre os quatro, temos Candelária e Venâncio Aires, que têm índices de suicídio entre os maiores do mundo, e eles ficam próximos um do outro. Para nós, isso dá uma facilidade logística para se deslocar, reunir as equipes e capacitá-las. Fizemos um projeto piloto e, a partir dele, vamos, em 2010, para mais quatorze municípios, totalizando em dezoito municípios.

IHU On-Line – Que localidades têm registrado maior índice de suicídio?

Ricardo Nogueira – Conforme as pesquisas, são as cidades de Venâncio Aires, Canguçu, São Lourenço do Sul, Candelária e Santa Cruz do Sul onde têm ocorrido variações, há uma diminuição e, em seguida, um repique. Isso pode ocorrer em distorções. Por exemplo, essas são as quatro cidades em que fizemos a nossa pesquisa e o projeto piloto, são as que apresentam maiores níveis, no entanto, quando se analisa na série histórica, uma análise de dez anos, constatamos que a cidade com maior índice de suicídios no Rio Grande do Sul é Santa Rosa. Santa Rosa é a cidade que aparece na análise dos dez anos, mas, se formos analisar, no ano passado e no retrasado ela não aparece. Por exemplo, na lista das cinquenta cidades que têm mais suicídios no Brasil, dez são do RS, mas aí não aparece São Lourenço.Só para se ter uma ideia, em São Lourenço do Sul, uma cidade que possui entre 15 e 20 mil habitantes, tem mais suicídios ou um número semelhante a todos os suicídios de Belém do Pará, que é uma cidade do tamanho de Porto Alegre. Então, temos de ter muito cuidado com esses números por causa das distorções, mas essa situação no RS realmente chama atenção. Conversei com o Secretário Estadual de Saúde, Dr. Osmar Terra, colocando para ele, dentro desses números, a emergência. Estamos com a proposta de continuar a pesquisa em mais quatorze municípios do RS que também apresentam números altos de suicídio, para que possamos, assim como em países europeus e Israel, que reverteram e, hoje, têm números negativos, trazer esses instrumentos que foram usados lá e aplicar aqui.

IHU On-Line – Na pesquisa que o senhor participou, qual o perfil dos suicidas?

Ricardo Nogueira – Em nossa pesquisa, a maioria são pessoas casadas. Antigamente, apareciam mais pessoas solteiras, separadas ou viúvas. 90% dos casos de suicídios são entre brancos, 90% são agricultores, e, em São Lourenço do Sul, também aparecem pescadores. A grande novidade da nossa pesquisa são os dados que recebemos da Secretaria de Segurança, de que as pessoas que se suicidam têm um número muito grande de ocorrências policiais como autoras ou vítimas. Um número muito grande, mais de 60% já estava tratando de doenças mentais ou usavam medicamentos psicotrópicos continuados, já tinham tentando suicídio anteriormente e tinham membros diretos de sua família que já haviam cometido suicídio. O perfil que concluímos é que são trabalhadores rurais, brancos, católicos, casados e com nível baixo de ensino. A grande maioria, entre 60 e 70% se matam por enforcamento e dentro de casa, principalmente. A pesquisa, que foi feita junto com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão RuralEMATER, tem outro viés que levanta a questão do fumo e dos organofosforados [1]. Estão querendo que seja aprofundada a pesquisa nesta área para comprovar, ou não, que esses elementos são responsáveis pelo suicídio. Porém, mesmo que isso seja comprovado, nossa visão é para que haja uma prevenção ao uso do tabaco e dos organofosforados.

IHU On-Line – É possível prevenir o suicídio?

Ricardo Nogueira – Claro, sem dúvida. Nossa proposta concreta é a criação dos grupos de sobrevivência. São grupos com pessoas que tentaram suicídio e familiares. Através do grupo, pode-se fazer com que haja uma sensibilização da pessoa e também a questão da avaliação do próprio tratamento. Avaliar se o tratamento que está sendo feito é correto, pois, cada caso é um, e existem vários diagnósticos. Tem como fazer um tratamento para as tentativas de suicídios. Vimos a questão dos jovens, e aí entram as cidades maiores. Os maiores números de suicídios de jovens estão em Porto Alegre, Passo Fundo, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Carazinho e Santo Ângelo, não nesta ordem. Inclusive, tem uma pesquisa constatando em quais os meses ocorrem mais suicídios e quantos suicídios ocorrem a cada mês. Os meses com maior incidência são dezembro e janeiro. Queremos chamar atenção para que as pessoas procurem ajuda, seus serviços de saúde, o Caps, a Unidade Básica de Saúde, seu psiquiatra ou psicólogo, porque, tendo-se uma equipe capacitada e treinada, é possível reverter a situação.

IHU On-Line – E qual o papel da mídia em relação aos suicídios?

Ricardo Nogueira – Esse é um problema. Existe um manual de prevenção do suicídio para a mídia, foi feito pela Organização Mundial de Saúde. Neste manual, há um cuidado muito grande, principalmente para os jovens, que é colocado como contágio. Há uma visão que diz que, quando se fala em suicídio está se estimulando, só que precisamos rever esta questão. É o mesmo que achar que, ao se falar em droga, estaria estimulando o consumo. Entendemos que o suicídio é uma realidade que está aí e, para ser combatida, tem que ser revelada. Temos que divulgar isso. Claro que precisamos ter um cuidado de como colocar a questão. Uma orientação seria, ao invés de suicídio, falar da promoção da vida. Mas há uma contradição, pois, sempre, em qualquer situação, há um outro lado, que, neste caso, é o estímulo de algumas mídias, como a Internet, uma área muito perigosa. Nesta área, existe uma capacidade apavoradora, pois, enquanto estamos querendo implantar um programa de prevenção ao suicídio, estamos com o Grupo de Valorização da Vida, que é um único, do outro lado nossos “inimigos” são imensos e não se tem noção de quantos sites existem que nos combateriam. Estamos sozinhos. Um contra uma gama imensa, e não se divulgam esses números porque daí sim estaria se estimulando. Já houve um caso famoso em Porto Alegre de um jovem que teve seu suicídio acompanhado passo a passo através desse tipo de mídia. Esta é outra questão delicada que requer um cuidado muito grande, pois a situação é muito maior e perigosa do que se tem noção.

Notas:

[1] Substâncias químicas extremamente tóxicas que contém carbono e fósforo, sendo geralmente obtidas através do uso de sais orgânicos do ácido fosfórico.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Rotas de Fuga

A capela, já tarde da noite, iluminada por uma vela, propiciou a conversa –confissão.
Minha amiga e eu lemos a Palavra, confessamos, oramos, choramos, rimos enfim, foi um culto.
O texto de hoje, proposto por Peterson diz: “Os seu filhos em redor de sua mesa são saudáveis e promissores ramos de oliveira.” Salmo 128, 3b. Meus filhos são realmente saudáveis e promissores ramos de Oliveira, até no nome! As milenares oliveiras que vi em Israel me impressionam: seus brotos florescem de troncos cortados, queimados, decepados!
Seus ramos crescem decididos a buscar seu lugar ao sol e dar frutos! Este é um jeito novo de olhar meus filhos. Não mais como adolescentes enozados mas como jovens saudáveis e promissores.
Mas, porque será que quando resolvo dar uma parada o sono foge? Uma, duas horas da manhã e os pensamentos em turbilhão.
Como esta saturação de agitação impregna, gruda, penetra!
Pela manhà, adormeço. Coisa bem boa, dormir assim, com barulhinho de chuva....
O aquietar-se não ocorre mágicamente, mas vai se instalando mansamente, enquanto luto com minhas rotas de fuga. Trazendo o laptop, fica fácil distrair... E agora até aqui tem internet, Skype, MSN, Orkut, facebook... Uma olhada rápida, contato com o marido e ótimo, isso eu tenho todos os dias, então, vamos priorizar!
A chuva copiosa deste segundo dia convida a introspecção. Como este retiro não é de silêncio, trouxe alguns livros junto. Vários comentários de Salmos: três de biblistas católicos, um protestante, me falta a tradução dos Louvores, do judeu Chouraqui. Três ou quatro traduções da Bíblia, o roteiro das leituras bíblicas do Dr. Carlos J. Hernandez – Leamos La Bíblia - o Desafio de amar, e o devocionário do Peterson, caderno.
Está de bom tamanho.
É incrível, mas até bons livros podem ser uma rota de fuga da intimidade com Deus! E mais, até a Bíblia pode se tornar um fim em si mesma. Estar em comunhão e adoração é diferente de dissecar a Palavra e preparar um estudo bíblico ou sermão.
Não foi pra isso que eu vim. Trouxe a lenha a o Isaque, em lenta caminhada subo o Moriá. Vou anotando meus sentimentos, percepções.
Sinto que estou um tanto silente por dentro.

E faço minhas as palavras de Adélia Prado, em O Homem Humano.

Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta
o que seria de mim eu não sei.
Sem teu nome a claridade do mundo não me hospeda,
é crua a luz crescente sobre ais.
Eu necessito por detrás do sol
do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos,
na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas.
Porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces,
eu repouso o rosto na areia
contemplando as formigas, envelhecendo em paz
como envelhece o que é de amoroso dono.
O mar é tão pequenino diante do que eu choraria
se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que te amo
nem sem medo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ruídos e vozes dentro da minha cabeça...

Já fazem alguns anos que tento priorizar tempos de silêncio, como forma de desintoxicar minha alma e terminações nervosas...
Como disse um monge, o tapete do silêncio é o que precisamos para dar os primeiros passos e entrar no santuário interior.
Bem, então, aqui estou eu, novamente num retiro. Desta vez, não de silêncio absoluto, porque a amiga que me acompanha está escrevendo e precisa conversar um pouco!
Decidir que eu pararia minhas atividades por 3 dias foi o primeiro passo. Percebi que estava muito cansada e dormindo poucas horas: ou seja, mistura perigosa.
Para cuidar de outros preciso estar bem.
Estes periodos de descanso são o que chamo "FÉRIAS DA MINHA ALMA". Tempos de restauração interior. O segundo passo foi riscar a agenda e avisar pacientes que nestes dias nao estaria.
Entrei em contato com uma casa de retiros, que frequento há anos: graças!! havia 2 quartos livres nestes dias!!(estes lugares tem sido muito procurados por empresas para reuniões, pois são agradáveis e bem mais baratos que hotéis...)
Contatei uma amiga, companheira de muitos retiros e contei meus planos.
Ela topou na hora: está em fase final do seu doutorado e precisa de um lugar tranquilo pra se concentrar e escrever.
A "depuração" começou organizando filhos e rotinas da casa para poder me ausentar.
Ok, isso não foi difícil, afinal, viajei e dei cursos e palestras como nunca, este ano. E meus filhos, o cão, o gato e plantas mativeram-se vivos e saudáveis.
Um sentimento de que sou quase desnecessária me acomete: isso deve ser cansaço!
Com a casa a venda e corretores e clientes telefonando, foi um exercício e tanto, me priorizar e dizer: eu vou!
Desta vez, trouxe o laptop e decidi registar meu processo, usando meu tempo de maneira disciplinada. Fazemos uma "devocional" pela manhã e outra a noite. Caminho bastante, aproveitando o sol, a beleza da natureza em rosas e ciprestes, o canto dos pássaros.
A capela das irmãs é de uma beleza simples e solene, e convida ao transcendente. É quase impossível no primeiro dia esvaziar a mente de toda a agitação, apreensão e tumultos bons e maus dos últimos meses. Dia difícil, porque é como frear o carro que vem ladeira a baixo em toda velocidade: assim foi meu ano.
Vou apaziguando minhas vozes interiores, os ruídos lentamente cedem.
A leitura bíblica de ontem me acompanhou o dia todo. Estou fazendo minhas leituras bíblicas de forma bem misturada. Acrescentei novos sabores, como o devocionário do Eugene Peterson. É dele esta livre tradução de Rom. 8:15-16. "Essa vida ressuscitada que voces receberam de Deus não é uma vida tímida, entalhadora de túmulo. Ela está esperando de forma aventureira, saudando a Deus com uma pergunta inocente, "E agora, Papai?"O Espírito de Deus toca nossos espíritos e confirma quem somos. sabemos quem ele é, e sabemos que quem somos: Pai e filhos/as."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Resiliência e espiritualidade: caminhos de vivência pessoal, familiar e comunitária e suas implicações para as relações de cuidado.

Resiliência e espiritualidade: caminhos de vivência pessoal, familiar e comunitária e suas implicações para as relações de cuidado.

Por Roseli M. Kühnrich de Oliveira.

Como cuidadores religiosos, psicólogos, educadores, profissionais da área da saúde, entre outras atividades, vivemos a experiência de tentar tornar concreto o cuidado através de ações que materializam este zelo, esta dedicação ou responsabilidade. As relações de cuidado apresentam como pano de fundo o conceito de resiliência que, por sua vez, remete à questão da ética do cuidado.
Nas relações de cuidado vive-se a aceitação das limitações e vulnerabilidades, tanto do cuidador como de quem recebe o cuidado, pois o cuidador faz parte deste processo de interação. Obviamente, destaca-se que o cuidador precisa ser cuidado para poder cuidar. Neste sentido, o mito do “sarador ferido” é paradigmático para as relações de ajuda, como bem destacou Henry Nouwen, lembrando de Quiron, personagem da mitologia grega que mesmo sendo exímio na arte de curar, sofria de uma ferida incurável!
A história da humanidade é repleta de exemplos de resiliência e fé, sendo que a espiritualidade cristocêntrica remete à pessoa de Jesus Cristo, sendo Ele mesmo um Sarador Ferido, “pois pelos seus sofrimentos somos curados” (Is 53:5).
Ao estudar a história recente, pessoas como Dietrich Bonhoeffer, Henri Nouwen, Gandhi, Tereza de Calcutá e muitos outros mostram como a fé, o transcendente e o recurso divino acompanham a conceituação de resiliência.
Lembro, em especial, do reverendo Martin Luther King e do seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, onde, na presença de milhares de pessoas, ele contava o seu sonho de um mundo sem desigualdades. King, pastor batista e doutor em teologia “transformou” sua indignação em mudanças reais, ou seja, superou as adversidades, mudando a história dos negros não somente nos EUA, mas em muitos outros países. Relembrando a todos a mensagem do Evangelho, sua proposta pela paz e contra o preconceito foi feita sem violência. Mesmo tendo sido assassinado, sua luta não foi em vão, pois era um cristão que vivia de forma concreta a teologia que pregava.
Vivemos, nós também, em meio a situações de preconceito, violência, pobreza e dores. A escuta sensível dos cuidadores constitui um importante elemento da resiliência e utiliza recursos como o humor, a arte e a fé.
A conhecida terapeuta familiar Froma Walsch, destaca que a transcendência e espiritualidade estão entre os recursos mais efetivos para a transformação, aprendizagem e crescimento a partir da adversidade.
Winnicott afirmava que somos constituídos como seres humanos a partir da presença do outro, sendo que as primeiras organizações psíquicas do bebê acontecem frente “ao rosto”, a face materna. O cuidador será, neste sentido, equivalente ao rosto materno, pois é a presença de alguém significativo, que testemunha e valida a dor que é expressa e acolhida.
Como psicóloga e, portanto, cuidadora, considero fundamental a possibilidade de que haja uma expressão resiliente.
Considero que a fé, o humor e a criatividade artística somam-se a outros recursos já citados como a família, amigos e etc como formas de expressão resiliente.
Venho prestado mais atenção, nos últimos anos, a manifestações criativas surgidas no atendimento clínico, sejam elas músicas, poemas, pinturas, esculturas, colagens, danças, vídeos, fotos e etc.
Estas manifestações muitas vezes são respostas à provocação, como, por exemplo, de desenhar um sonho ou um texto bíblico.
Ao usar o hemisfério cerebral direito, que é intuitivo, ligado à emoção e produção artística, e não apenas o hemisfério esquerdo, ligado aos aspectos racionais e analíticos, a pessoa vai tomando consciência de si mesma, passando a se ver de maneira nova, mais “congruente”, como diria Rogers.
Lembro de uma jovem mulher que conheci anos atrás. Ela me procurou em meio a um grande sofrimento, sem condições de cuidar de seu bebê. Totalmente descuidada na aparência, ora pulava sem parar, ora deitava-se debaixo das cadeiras do consultório, totalmente em silêncio. Aos poucos, foi aceitando o convite para pintar. Por vezes, ela cantava palavras sem nexo numa melodia triste enquanto usava tintas e pincéis.
A necessidade de medicamento impunha-se e buscamos fazer um acompanhamento integrado: o psiquiatra, seu pastor e eu. Acionamos sua rede de apoio: a família, igreja, amigos. Seu esposo também buscava auxílio e formas resilientes de sobreviver!
Como ela tinha um bom nível intelectual e estava na universidade por ocasião da crise psicótica, aos poucos começou a registrar em seu diário seus pensamentos dissonantes, angústias e medos. Incentivei-a a escrever seus “salmos” como forma de oração, que hora eram de lamentação, hora de esperança. Registrava seu temor de não poder cuidar da família, de nunca mais poder trabalhar ou estudar. Mas o que sempre me chamou a atenção foi sua resiliência. Ela lutava para melhorar e de fato, rescindiu o contrato com a adversidade.
Não faz muito tempo, ela veio me devolver um livro que eu havia lhe emprestado. Observei sua boa aparência e que voltou ao peso normal. Relatou que estava praticando esporte, estudando, trabalhando, cooperava na igreja e pensava ter mais um bebê. Comentou o tempo que estivera em crise, quando não tinha condições nem de fazer a mamadeira de sua filha, e olhando para as cadeiras, disse com bom humor: - “Eu tava mal, hein!”.
Declarou que durante e depois deste período aprendeu, sobretudo, a ser menos preconceituosa e perfeccionista e a se alegrar com as pequenas coisas. Sua fé, que ela achava que havia perdido, havia se fortalecido ao ser exercitada de forma criativa e artística.
Tenho usado recursos da arte em terapia com adolescentes, religiosos/as, e me encanto com a profundidade das suas percepções!
Penso que a arte desde sempre reflete a espiritualidade do ser humano, pois o trabalho criativo é mais que uma forma de superação das adversidades, em essência é herança divina.
Na história da saúde mental do Brasil, registra-se de forma comovente e magistral a atuação da Dra. Nise da Silveira, discípula de Jung e pioneira no tratamento de pacientes psiquiátricos. Nise da Silveira, ao incentivar seus pacientes a pintar, não apenas humanizou o tratamento psiquiátrico, mas principalmente devolveu aos pacientes a dignidade baseada na teoria do afeto: o olhar, a presença do cuidador como aquele que acolhe a produção artística pelo que ela representa para quem a criou. Neste sentido, estas pinturas, tal qual ícones, transcendem e ultrapassam seu objetivo imediato.
Perguntei-me, portanto, como posso efetivamente, ser uma companheira de caminhada, ou, como podemos ser “tutores” de resiliência. Entendo que as situações difíceis que nós, cuidadores, enfrentamos e que nos tornaram resilientes, nos propiciam a empatia, ou talvez mais, a misericórdia que necessariamente deve acompanhar o saber científico. Além disto, como cuidadores somos parte do processo e sentimos em nós mesmos o impacto da dor do outro. Portanto, é necessário que os cuidadores busquem recursos e possibilidades para trabalhar suas próprias dores.
Procuro, nesta ressonância, mostrar que a arte, a espiritualidade, o humor, a música são, entre outros, fatores de resiliência e cuidado.
Como seres humanos, necessitamos acreditar que Alguém “nos vê” e se importa. Precisamos de um Rosto que nos seja familiar e que de alguma forma, dê sentido a nossa vida e nos lembre quem somos.
Ao longo dos séculos, a humanidade tem procurado através da arte sacra, dar visibilidade a este “rosto”. Muitos artistas, utilizando inúmeras técnicas e recursos criativos, buscaram incessantemente, através da arte pictórica, ou na forma de mosaicos, esculturas, etc. retratar o “rosto” , ora sofrido, ora meigo, ora vitorioso ou glorificado, que personifica A Face da Compaixão e que remete ao Cristo como a “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1:15). A arte sacra é, portanto, um registro desta busca, é uma forma de representar Este que simboliza por excelência o cuidado e que, maternalmente, nos constitui como pessoas: Jesus.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cuidando de quem Cuida

Este é um espaço destinado a reflexão sobre o cuidado aos cuidadores, em especial aos profissionais das Relações de Ajuda. Os/as que se dedicam a cuidar sofrem em si mesmos/as os desgastes que a função cuidadora provoca. Cuidar de si mesmo é essencial: só se pode dar o que se tem!

Poesia tenho recebido, poesia ofereço, pra começar....

O Rei do Mar

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.
Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta nem tormento
nos poderiam parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.

Cecília Meireles