Como psicóloga e terapeuta familiar, me impressiona o número cada vez maior de relatos de mulheres cristâs que se casam e não querem saber de sexo, para o desespero de maridos igualmente cristãos. Os bem intencionados que se guardaram para o casamento sente-se duplamente traídos. O sexo condicional - como base de trocas e barganhas, liquida qualquer possibilidade de intimidade existencial. Alguns enveredam para o sexo digital/virtual, o que dentona ainda mais a relação familiar. Reduzidos ao objetos sexuais, são escalados para o papel de procriadores, quando as companheiras resolvem ser mães, não sendo raros os casos onde a mulher para de tomar a pílula sem avisar o parceiro. Mais uma vez traídos, pois se tornam pais sem ter podido desejar e se alegrar, retiram-se emocionalmente da relação, e passam a desempenhar com mal disfaçado enfado seu título de marido. A paternidade que poderia resultar num resgate da masculinidade é manipulada ou usurpada num contexto de mistura dos papéis na espiral da vida familiar. Avôs e avós que solitários/as temem envelhecer, fornecem não mais o apoio e sabedoria, pois reduzem a infantilidade seus jovens filhos retirando-lhes a capacidade de errar, acertar e aprender. As igrejas ativistas, ufanistas e prósperas ajudam a disfarçar o mal cheiro com programações editadas que em nada favorecem um real confronto com a situação e uma possível busca de melhoria.
Não sou pessimista, acredito no poder de Deus e acredito que se pode sim, viver melhor em família. Trabalho muito neste sentido. Só não acredito em Papai Noel e soluções mágicas.
Viver a dois, ou em família requer boa dose de altruísmo, que não por acaso, é palavra bem pouco ouvida ou atitude pouco vivida nestes tempos tão ego-istas.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Prosa do poeta leigo, por Roberto Diamanso
PROSA DO POETA LEIGO
Roberto Diamanso
publicado no Livro Uma criança os guiará, Ultimato, 2010
Se prosa é o curso livre do discurso
livre de pretensões, livre da métrica,
escrevo estas minhas, poucas linhas, retas.
Mas se não é o verso, não seja inverso
e dele, ausência completa,
não vulgar, trivial, ou comum,
mas sem grande elevação
de fácil compreensão
aos que se debruçarem sobre ela.
Não sei se é possível a uma prosa
não ser também uma conversa
e dessa temo alguns aspectos,
conotações aos quais nos arremessa,
a saber: “isto é conversa”, “palavreado”,
“bafo” de alguém, que não tem
a menor intenção de cumprir;
segundo Aurélio expressa.
Conversar é versar com
e eu estou só, versando
versando só assim
quiçá serei poeta
mas nem isso me atrevo
dizer que sou profeta,
sejamos pois pastores,
quem quer que ouça
e reconheça a voz
do pastor de todos nós
que amar aos pequeninos
também nos inquieta.
No campo da prosa em nível semântico
encontrei, prático, positivo,
este, baseado em experiências
ou fatos que não admitem dúvidas,
fala consoante a realidade,
aquele, perito experiente,
que por sua capacidade de agir,
pode ir e conduzir
por onde é transitável,
mostrar a rota certa.
Somos “os do Caminho”,
discípulos daquele que disse,
“Eu sou o caminho”
que pouco escreveu,
mas que muito imprimiu,
não em papel e com tinta,
mas nas mentes e corações
daqueles que mais tarde declararam
não vai jamais ninguém nos demover
o que vimos e ouvimos,
não podemos deixar de dizer
para não desvanecer,
é impressão perpétua.
Este é o caminho para não querer,
outro “vem a nós”
se não o ver,
vir a nós o seu reino.
Reino que não é outro, se não
o reino dos pequeninos pois
dos tais é o reino dos céus,
o Mestre disse aos seus
deixem que venham a mim
que ninguém os impeça.
Senta-te para uma prosa
diga-me se és sabedor
trazes viola prangente
sendo tu seu tangedor
de mãos hábeis, mão-tenente
de Jesus o bom pastor
dou-te o texto, vês o ensino?
Em que verso começou?
Cantador
Achei no Livro Sagrado
Mateus dezenove seis
que bom que me deste vez
ser teu co-laborador.
Nesta obra que tanto estimo
vívido a viver este ensino
que antes de haver menino,
macho e fêmea os criou.
Poeta prosador
Sendo assim o que Deus juntou
não é bom que esteja só
ninguém desfaça este nó
daquele que a si nos atou.
Cantador
Sou livre e sem amarras
comprado pra liberdade
mas a minha felicidade
é estar ligado aquela
a quem quando eu disse vamos
de pronto disse vambóra
doravante o que outrora fomos,
não seremos mais.
Nossos corações?
continuam sendo dois,
dois vassalos
levando numa liteira
vida inteira
em função de nós
que não se desatam
estes que demos em nós.
E tu poeta ancião?
Teus cabelos encanecidos
por tantos dias vividos
teria desvanecido,
o prazer da companhia
daquela que amaste um dia?
Tens ainda poesia,
prosa, verso, uma canção?
Poeta prosador
Eu quero me mirar
na água da minha cisterna
mulher da minha mocidade
libido, saudade,
sede da minha gazela.
Obrigado Senhor, pelo meu amor,
o beijo, o doce, os seios dela.
Sentarmos a mesa para comer o grão,
sairmos juntos plantando a semente
cuidar da vida das mudas de gente
que brotam de nós.
E outras mudas de gente,
filhos da alteridade
a soltas pela cidade
onde a orfandade os levou.
Estenda-se nosso cuidado
aos meninos abandonados
correndo riscos diversos
que dos pais estão dispersos
como ovelhas sem pastor.
Quem não se fizer menino
capaz de com eles brincar
e crer no que o Pai promete
não perde por esperar
por não esperar, travesso
se as avessas, tropeço,
se precipita no mar.
Imóvel atado a pedra
ou na barriga de um peixe
se pedir que Deus lhe deixe
se viver, se ele deixar,
quem viver verá mudança.
Quem é este que canta e dança?
Rodeado de crianças
das quais se pôs a cuidar.
Cantador
Pois não, eis-me aqui,
se é pra cuidar de meninos
pode me chamar,
que eu vou.
Sei que tem beira de estrada
pedra que eu levei topada
tem também terra molhada
lavoura toda formada
que eu já vi
pé com botãozinho e flor.
Vamo simbóra
pra nossa roça
cuidar de brotos e mudas
pra quando o amanhã chegar,
florescer e dar frutos bons.
Mas quanto àqueles meninos
com pai vivo
e mãe bulindo
todos ao relento dormindo
carentes do mesmo amor.
Poeta prosador
Vamos levá-los para a casa
o pai, a mãe, o filho, a filha
se temos toda a família
só falta o que lhes faltou.
Cantador
Para o cancionista
o amor é matéria-prima
ainda que não haja rima
e que eu até perca o tom
se não me faltar este dom
sobrosso nenhum restou.
Se o sobrosso é o medo
na linguagem nordestina
e é a Bíblia que ensina
que o amor é caridade
não será temeridade
pois Deus por sua bondade
um dia nos adotou.
Jesus seu Filho Unigênito
que agora é Filho Primeiro
correu risco verdadeiro
até a morte enfrentou.
Nele todo homem é filho
filho que Deus adotou,
nele Deus é filho adotivo de um homem
o qual digo agora o nome
José que Jacó gerou.
Roberto Diamanso nasceu no Sítio Paus Viola, em Taquarana, Alagoas. Cresceu nas casas de farinhas onde escutou histórias encantadas contadas e cantadas por gente simples, de onde tira a inspiração para seus poemas e músicas. É músico, poeta, pastor e cuidador de crianças.
Roberto Diamanso
publicado no Livro Uma criança os guiará, Ultimato, 2010
Se prosa é o curso livre do discurso
livre de pretensões, livre da métrica,
escrevo estas minhas, poucas linhas, retas.
Mas se não é o verso, não seja inverso
e dele, ausência completa,
não vulgar, trivial, ou comum,
mas sem grande elevação
de fácil compreensão
aos que se debruçarem sobre ela.
Não sei se é possível a uma prosa
não ser também uma conversa
e dessa temo alguns aspectos,
conotações aos quais nos arremessa,
a saber: “isto é conversa”, “palavreado”,
“bafo” de alguém, que não tem
a menor intenção de cumprir;
segundo Aurélio expressa.
Conversar é versar com
e eu estou só, versando
versando só assim
quiçá serei poeta
mas nem isso me atrevo
dizer que sou profeta,
sejamos pois pastores,
quem quer que ouça
e reconheça a voz
do pastor de todos nós
que amar aos pequeninos
também nos inquieta.
No campo da prosa em nível semântico
encontrei, prático, positivo,
este, baseado em experiências
ou fatos que não admitem dúvidas,
fala consoante a realidade,
aquele, perito experiente,
que por sua capacidade de agir,
pode ir e conduzir
por onde é transitável,
mostrar a rota certa.
Somos “os do Caminho”,
discípulos daquele que disse,
“Eu sou o caminho”
que pouco escreveu,
mas que muito imprimiu,
não em papel e com tinta,
mas nas mentes e corações
daqueles que mais tarde declararam
não vai jamais ninguém nos demover
o que vimos e ouvimos,
não podemos deixar de dizer
para não desvanecer,
é impressão perpétua.
Este é o caminho para não querer,
outro “vem a nós”
se não o ver,
vir a nós o seu reino.
Reino que não é outro, se não
o reino dos pequeninos pois
dos tais é o reino dos céus,
o Mestre disse aos seus
deixem que venham a mim
que ninguém os impeça.
Senta-te para uma prosa
diga-me se és sabedor
trazes viola prangente
sendo tu seu tangedor
de mãos hábeis, mão-tenente
de Jesus o bom pastor
dou-te o texto, vês o ensino?
Em que verso começou?
Cantador
Achei no Livro Sagrado
Mateus dezenove seis
que bom que me deste vez
ser teu co-laborador.
Nesta obra que tanto estimo
vívido a viver este ensino
que antes de haver menino,
macho e fêmea os criou.
Poeta prosador
Sendo assim o que Deus juntou
não é bom que esteja só
ninguém desfaça este nó
daquele que a si nos atou.
Cantador
Sou livre e sem amarras
comprado pra liberdade
mas a minha felicidade
é estar ligado aquela
a quem quando eu disse vamos
de pronto disse vambóra
doravante o que outrora fomos,
não seremos mais.
Nossos corações?
continuam sendo dois,
dois vassalos
levando numa liteira
vida inteira
em função de nós
que não se desatam
estes que demos em nós.
E tu poeta ancião?
Teus cabelos encanecidos
por tantos dias vividos
teria desvanecido,
o prazer da companhia
daquela que amaste um dia?
Tens ainda poesia,
prosa, verso, uma canção?
Poeta prosador
Eu quero me mirar
na água da minha cisterna
mulher da minha mocidade
libido, saudade,
sede da minha gazela.
Obrigado Senhor, pelo meu amor,
o beijo, o doce, os seios dela.
Sentarmos a mesa para comer o grão,
sairmos juntos plantando a semente
cuidar da vida das mudas de gente
que brotam de nós.
E outras mudas de gente,
filhos da alteridade
a soltas pela cidade
onde a orfandade os levou.
Estenda-se nosso cuidado
aos meninos abandonados
correndo riscos diversos
que dos pais estão dispersos
como ovelhas sem pastor.
Quem não se fizer menino
capaz de com eles brincar
e crer no que o Pai promete
não perde por esperar
por não esperar, travesso
se as avessas, tropeço,
se precipita no mar.
Imóvel atado a pedra
ou na barriga de um peixe
se pedir que Deus lhe deixe
se viver, se ele deixar,
quem viver verá mudança.
Quem é este que canta e dança?
Rodeado de crianças
das quais se pôs a cuidar.
Cantador
Pois não, eis-me aqui,
se é pra cuidar de meninos
pode me chamar,
que eu vou.
Sei que tem beira de estrada
pedra que eu levei topada
tem também terra molhada
lavoura toda formada
que eu já vi
pé com botãozinho e flor.
Vamo simbóra
pra nossa roça
cuidar de brotos e mudas
pra quando o amanhã chegar,
florescer e dar frutos bons.
Mas quanto àqueles meninos
com pai vivo
e mãe bulindo
todos ao relento dormindo
carentes do mesmo amor.
Poeta prosador
Vamos levá-los para a casa
o pai, a mãe, o filho, a filha
se temos toda a família
só falta o que lhes faltou.
Cantador
Para o cancionista
o amor é matéria-prima
ainda que não haja rima
e que eu até perca o tom
se não me faltar este dom
sobrosso nenhum restou.
Se o sobrosso é o medo
na linguagem nordestina
e é a Bíblia que ensina
que o amor é caridade
não será temeridade
pois Deus por sua bondade
um dia nos adotou.
Jesus seu Filho Unigênito
que agora é Filho Primeiro
correu risco verdadeiro
até a morte enfrentou.
Nele todo homem é filho
filho que Deus adotou,
nele Deus é filho adotivo de um homem
o qual digo agora o nome
José que Jacó gerou.
Roberto Diamanso nasceu no Sítio Paus Viola, em Taquarana, Alagoas. Cresceu nas casas de farinhas onde escutou histórias encantadas contadas e cantadas por gente simples, de onde tira a inspiração para seus poemas e músicas. É músico, poeta, pastor e cuidador de crianças.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Misericórdia
Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo", escreve Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 17-05-2010. PUBLICAÇÃO IHU
Eis o artigo.
É comum se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 - 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.
Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo "perdão" porque, hoje em dia, ela está na moda.
"Meu Deus, como amo a moda", dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, "ensina-se" cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso. Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser "professor de Cabala", cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.
Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata. Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.
Um dos "galhos" da árvore da cabala é chamado "Hod", que é traduzido por especialistas em história da cabala como "agradecimento".
É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.
Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: "Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?".
Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra "demônio" como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.
Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.
Muitos localizam esta misericórdia na mesma "árvore", como sendo "Hesed" (as vezes também traduzida como "piedade"). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o "preferido de Deus".
Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, "Bereshit" (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia.
Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou "Din", outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.
Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o "investimento".
Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.
Deus pensa e decide a nosso favor.
Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.
Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.
Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.
Eis o artigo.
É comum se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 - 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.
Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo "perdão" porque, hoje em dia, ela está na moda.
"Meu Deus, como amo a moda", dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, "ensina-se" cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso. Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser "professor de Cabala", cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.
Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata. Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.
Um dos "galhos" da árvore da cabala é chamado "Hod", que é traduzido por especialistas em história da cabala como "agradecimento".
É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.
Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: "Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?".
Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra "demônio" como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.
Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.
Muitos localizam esta misericórdia na mesma "árvore", como sendo "Hesed" (as vezes também traduzida como "piedade"). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o "preferido de Deus".
Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, "Bereshit" (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia.
Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou "Din", outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.
Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o "investimento".
Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.
Deus pensa e decide a nosso favor.
Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.
Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.
Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Profeta Jeremias
Jeremias, uma pessoa intensa. Ele nao foi piegas, viveu em meio a tempestades e dúvidas amargas. Nele não houve complacência, presunção ou ingenuidade. ESTICADO ATÉ O LIMITE PELA FADIGA, sujeito a rejeição. O " ser bom" em Jeremias era algo parecido com valentia. (baseado no livro do Perterson).
segunda-feira, 15 de março de 2010
Entrevista
Nesta conto um pouco sobre minha vida, fé, profissão, etc...S
Qual a sua religião?
Minha religião é caminhar, isso eu faço religiosamente! Minha devoção é Jesus, o Deus –Encarnado. Sou uma cristã que congrega numa igreja batista, onde fui criada. Não teria problemas de congregar em outras denominações cristãs. A fé e sua vivencia fazem parte do meu ser desde que eu era gestada. Isso se deu pela musica: minha mãe, uma alemã nascida na Sibéria, tinha uma poderosa voz de contralto e cantava em corais de igreja. A musicalidade e a espiritualidade russas passam por minhas células. Acho que não sou padrão de nada e ninguém, fujo dos estereótipos. Detesto “parecer crente”, prefiro ser.
Por decorrência do meu trabalho, quando viajo ou tenho vontade, procuro conhecer igrejas, visitar comunidades religiosas.. Gosto de observar a diversidade da busca ao sagrado, como as pessoas se organizam para isso.
Qual a sua religião?
Minha religião é caminhar, isso eu faço religiosamente! Minha devoção é Jesus, o Deus –Encarnado. Sou uma cristã que congrega numa igreja batista, onde fui criada. Não teria problemas de congregar em outras denominações cristãs. A fé e sua vivencia fazem parte do meu ser desde que eu era gestada. Isso se deu pela musica: minha mãe, uma alemã nascida na Sibéria, tinha uma poderosa voz de contralto e cantava em corais de igreja. A musicalidade e a espiritualidade russas passam por minhas células. Acho que não sou padrão de nada e ninguém, fujo dos estereótipos. Detesto “parecer crente”, prefiro ser.
Por decorrência do meu trabalho, quando viajo ou tenho vontade, procuro conhecer igrejas, visitar comunidades religiosas.. Gosto de observar a diversidade da busca ao sagrado, como as pessoas se organizam para isso.
terça-feira, 2 de março de 2010
"Deus também acredita naquilo que eu acredito."
As crenças de Deus e de outras pessoas
As pessoas religiosas tendem a usar suas próprias crenças como um guia para pensar no que o próprio Deus acreditaria, mas são muito menos restritivas quando ponderam sobre as crenças de outras pessoas.
A pesquisa acaba de ser publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, resultado de uma colaboração entre cientistas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e Monash, na Austrália.
O estudo, coordenado por Nicholas Epley, professor de ciência comportamental, incluiu uma série de pesquisas e estudos de neuroimagens para examinar a extensão na qual as crenças das pessoas guiam suas previsões sobre no que Deus acreditaria.
As descobertas ampliam o conhecimento atual da psicologia, mostrando que as pessoas são frequentemente egocêntricas quando inferem as crenças de outras pessoas - grande parte da tradição judaico-cristã-islâmica concebe Deus como uma pessoa.
Eu, Bill Gates, Bush e Deus
O trabalho agora publicado relata os resultados de sete estudos separados. Os primeiros quatro incluem pesquisas entre usuários do metrô de Boston, estudantes universitários de Chicago e uma base de dados de respondentes online representativa da população dos Estados Unidos.
Nessas entrevistas, os participantes relatavam sua própria crença sobre uma determinada questão e sua estimativa daquilo no que Deus acreditaria, assim como avaliações das crenças de pessoas conhecidas, como Bill Gates, Barry Bonds (da liga de beisebol), o então presidente do Estados Unidos George W. Bush e um cidadão considerado médio.
Deus de um ponto de vista egocêntrico
Dois outros estudos manipularam diretamente as crenças dos próprios entrevistados e descobriram que inferências sobre as crenças de Deus acompanham as crenças das próprias pessoas - algo como "Deus também acredita naquilo que eu acredito."
Foi pedido aos participantes, por exemplo, que eles escrevessem um texto que apoiasse ou se opusesse à pena de morte. Depois foi pedido que eles lessem o texto na frente de uma câmera - um exercício que reconhecidamente afeta as crenças que as pessoas relatam. As crenças foram computadas antes e depois da leitura frente à câmera.
O último estudo envolveu imagens cerebrais feitas por ressonância magnética funcional para medir a atividade neural dos participantes conforme eles pensavam sobre suas próprias crenças versus as crenças de Deus e de outras pessoas.
Os dados demonstraram que as ponderações sobre as crenças de Deus ativam muitas das mesmas regiões que se tornam ativas quando as pessoas pensam sobre suas próprias crenças.
As crenças de Deus, segundo eu próprio
Os pesquisadores destacam que as pessoas frequentemente acertam suas "bússolas morais" de acordo com o que eles acreditam ser os padrões do pensamento de Deus.
"A característica central de uma bússola, contudo, é que ela aponta para o norte não importando para qual direção a pessoa está virada," ponderam eles. "Estas pesquisas sugerem que, ao contrário de uma bússola real, as inferências sobre as crenças de Deus podem ao contrário apontar mais fortemente na direção para a qual as pessoas já estão voltadas, não importando que direção seja esta."
Mas os pesquisadores também não descartam a possibilidade de que as presumidas crenças de Deus possam servir de guia para as pessoas em situações nas quais elas estão indecisas ou incertas sobre suas próprias crenças. Neste caso, tentar agir "como Deus agiria" pode levar a comportamentos mais altruístas.
As pessoas religiosas tendem a usar suas próprias crenças como um guia para pensar no que o próprio Deus acreditaria, mas são muito menos restritivas quando ponderam sobre as crenças de outras pessoas.
A pesquisa acaba de ser publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, resultado de uma colaboração entre cientistas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e Monash, na Austrália.
O estudo, coordenado por Nicholas Epley, professor de ciência comportamental, incluiu uma série de pesquisas e estudos de neuroimagens para examinar a extensão na qual as crenças das pessoas guiam suas previsões sobre no que Deus acreditaria.
As descobertas ampliam o conhecimento atual da psicologia, mostrando que as pessoas são frequentemente egocêntricas quando inferem as crenças de outras pessoas - grande parte da tradição judaico-cristã-islâmica concebe Deus como uma pessoa.
Eu, Bill Gates, Bush e Deus
O trabalho agora publicado relata os resultados de sete estudos separados. Os primeiros quatro incluem pesquisas entre usuários do metrô de Boston, estudantes universitários de Chicago e uma base de dados de respondentes online representativa da população dos Estados Unidos.
Nessas entrevistas, os participantes relatavam sua própria crença sobre uma determinada questão e sua estimativa daquilo no que Deus acreditaria, assim como avaliações das crenças de pessoas conhecidas, como Bill Gates, Barry Bonds (da liga de beisebol), o então presidente do Estados Unidos George W. Bush e um cidadão considerado médio.
Deus de um ponto de vista egocêntrico
Dois outros estudos manipularam diretamente as crenças dos próprios entrevistados e descobriram que inferências sobre as crenças de Deus acompanham as crenças das próprias pessoas - algo como "Deus também acredita naquilo que eu acredito."
Foi pedido aos participantes, por exemplo, que eles escrevessem um texto que apoiasse ou se opusesse à pena de morte. Depois foi pedido que eles lessem o texto na frente de uma câmera - um exercício que reconhecidamente afeta as crenças que as pessoas relatam. As crenças foram computadas antes e depois da leitura frente à câmera.
O último estudo envolveu imagens cerebrais feitas por ressonância magnética funcional para medir a atividade neural dos participantes conforme eles pensavam sobre suas próprias crenças versus as crenças de Deus e de outras pessoas.
Os dados demonstraram que as ponderações sobre as crenças de Deus ativam muitas das mesmas regiões que se tornam ativas quando as pessoas pensam sobre suas próprias crenças.
As crenças de Deus, segundo eu próprio
Os pesquisadores destacam que as pessoas frequentemente acertam suas "bússolas morais" de acordo com o que eles acreditam ser os padrões do pensamento de Deus.
"A característica central de uma bússola, contudo, é que ela aponta para o norte não importando para qual direção a pessoa está virada," ponderam eles. "Estas pesquisas sugerem que, ao contrário de uma bússola real, as inferências sobre as crenças de Deus podem ao contrário apontar mais fortemente na direção para a qual as pessoas já estão voltadas, não importando que direção seja esta."
Mas os pesquisadores também não descartam a possibilidade de que as presumidas crenças de Deus possam servir de guia para as pessoas em situações nas quais elas estão indecisas ou incertas sobre suas próprias crenças. Neste caso, tentar agir "como Deus agiria" pode levar a comportamentos mais altruístas.
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