sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Livros infantis gratuitos - Projeto Itaú

O Itaú está com um projeto de incentivo à leitura e está enviando gratuitamente livros infantis para que os pais possam ler para as crianças e passar adiante.
Entrem no link e preencham o cadastro, que os livros são enviado em até 20 dias.
http://www.lerfazcrescer.com.br/#/home

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Esquizofrenia e a Estrela de David

Em 1938, a chamada “Noite dos Cristais” marca o início da perseguição aos judeus na Alemanha e na Áustria. Posteriormente, os judeus são confinados em bairros determinados e obrigados a andar com a estrela de David estampada em papelete amarelo e pregada junto a roupa, de forma que fossem facilmente identificados.

Esse segregacionismo também é estendido aos ciganos, comunistas, homossexuais e, inclusive, às pessoas com sofrimento psíquico. A Alemanha de Hitler exterminou e perseguiu milhões de pessoas constituindo-se como uma das mais horrendas e vergonhosas páginas da história do Homem. Infelizmente o preconceito e perseguição às minorias chegam até os nossos dias, seja pelo viés das piadas e comentários de gosto duvidoso, seja por grupos organizados como os “skinheads”.

Em 20 de abril de 2010, ao retirar o medicamento do qual faço uso na “Farmácia de Medicamentos Especializados”, em Santos, gerenciada agora pela Cruzada Bandeirante São Camilo, sob os auspícios da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, recebo uma carteira amarela com enormes carimbos estampados: ESQUIZOFRENIA.

Confesso que num primeiro momento a única coisa em que pensei foi que havia em minha testa uma tatuagem, um carimbo com meu diagnóstico estampado para que todos pudessem apontar e dizer: “Lá vai o Esquizofrênico”. Teria sido apenas um “ato falho” da burocracia? Quem sabe uma ação inconsciente do recém-admitido gestor da farmácia? Ou seria, então, uma política pensada e planejada para expor e reafirmar o estigma das pessoas?

A Lei 10.216 (chamada Lei Paulo Delgado), assim como outras leis específicas da legislação médica, é ferida frontalmente na medida em que o sigilo do diagnóstico estabelecido em prontuário médico é, escancaradamente e em letras garrafais, divulgado. A “Carteira do Esquizofrênico”, nesse sentido, é uma afronta ao bom senso. Mais do que isso, é ilegal, dissemina o preconceito, ofende a ética e, sobretudo, causa revolta.

Todo o trabalho, treinamento, aprimoramento, debates, documentos, fóruns, leis promulgadas, etc., é jogado por terra por atos que denotam a verdadeira face de governantes descomprometidos com os avanços conquistados pelas lutas das pessoas com algum tipo de sofrimento psíquico. A “Carteira do Esquizofrênico” mostra a verdade, ela rotula nossas misérias para calar a nossa voz.

Um governo que se nega a convocar a Conferência Estadual de Saúde Mental; que pouca importância dá a Saúde Mental de nosso município; que sucateou os serviços do Hospital Guilherme Álvaro para entregá-lo à iniciativa privada; que sucateou a antiga “Farmácia de Medicamentos de Alto Custo” para mais uma vez entregar um serviço público à iniciativa privada e que, em conjunto com a Prefeitura Municipal de Santos, vem precarizando os NAPS, só poderia mesmo mostrar todo o seu pensamento em relação a nós, usuários dos serviços, num “ato falho”: a “Carteira de Louco”.

A burocracia burra e mal intencionada é um dos braços desta máquina de estigmatização. Primeiros os loucos, depois os pobres, depois os negros, e assim por diante, até que todas as vozes contrárias sejam suprimidas.

O passo seguinte ao de retirar a nossa voz é nos colocar novamente nos manicômios (ou nos trinta novíssimos leitos psiquiátricos recém abertos pela Cruzada Bandeirante São Camilo) e, retrocedendo ainda mais, aplicar-nos castigos como o “eletrochoque”, a “solitária” e outros métodos sádicos, que brotam na mente dos que administram as instituições desse caráter, chegando, por fim, à tão sonhada volta da lobotomia, em que o Estado poderia estar livre de despesas e questionamentos.

Não, não tenho vergonha de ser Esquizofrênico. Mas também não posso dizer que fácil lidar com o preconceito. Por todos os lugares onde tento fazer valer a minha cidadania, logo vem a taxação: é louco! Também não é raiva o que sinto, nem indignação. É um sentimento de impotência frente a esta máquina tão poderosa que fatalmente irá desconsiderar meu desabafo com apenas um argumento: “é louco”. E isto é o que faz minhas pernas e meu corpo fraquejarem, mas parafraseando Cazuza no final de sua vida, morro atirando.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

SEJA DOADOR/DOADORA DE PALAVRAS AMIGAS!!

O Hospital Mário Penna, de Belo Horizonte, que cuida de doentes com câncer, lançou um projeto pra lá de sensacional. É o Doe Palavras. Fácil, rápido e todo mundo pode doar um pouquinho, que nem dói. Basta acessar o site www.doepalavras.com.br e escrever uma mensagem. Sua frase aparece no telão para os pacientes que estão em tratamento.

Enquanto fazem químio, podem ler o que escrevemos pra eles.

Por que você não experimenta?!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O perfil do lider do século XXI - palestra Roseli

Psicologia e Espiritualidade:
Desafios e possibilidades no pastorear e ser pastoreado.


A proposta de pensar a psicologia e a espiritualidade é sem dúvida um desafio. Temos observado que a fé e a religião, excluídas das ciências nos últimos séculos, passam novamente a despertar interesse, a ponto de surgirem diversos grupos de estudo e simpósios com este tema. Pesquisadores tanto da área médica quanto emocional buscam as interfaces com outros campos do conhecimento, na inter e transdisciplinaridade e o resultado se faz notar em termos práticos, de novos campos de atuação.
Neste encontro de pastores buscamos mostrar de forma teórico – vivencial como é possível o diálogo entre ciência e fé.
O texto bíblico escolhido como referência diz: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a Igreja de Deus.” Atos 20:28.
Ou seja, sem o cuidado de si mesmo não é possível cuidar dos outros. As demandas da atividade pastoral, em qualquer dimensão, geram desgastes físicos, emocionais, espirituais.
É preciso estar atento para se recompor tanto preventivamente quanto terapeuticamente quando necessário.
Utilizamos para estrutura deste pensar sobre si mesmo um pequeno livro, “O Perfil do Líder Cristão do século XXI” do sacerdote e professor de Psicologia Pastoral em Harvard e nas universidades Notre Dame e Yale, escritor e conferencista internacional, falecido em 1996,Henri Nouwen.
Os pontos que ele aborda, a partir dos textos bíblicos da tentação de Jesus no deserto(Mt. 4: 1- 11) e o chamado de Pedro (Jo 21: 15-19),são:

1 – Da Relevância à Oração

A tentação: Causar impacto
A pergunta: Você me ama?
A disciplina: Oração contemplativa

Os religiosos são muitas vezes tentados a causar impacto a partir de si mesmos. Ser um sacerdote miraculoso, principalmente no contexto da pobreza, acaba por trazer grande popularidade... satisfazer necessidades humanas, legítimas, nos toca de perto! Nouwen propõe que o impacto se dê pelo afeto, por alguém que se importe, por um pastor que realmente apascenta suas ovelhas. Isto só é possível quando amamos a Deus acima de todas as coisas, quando Ele nos pergunta “Tu me amas?” e respondemos como Pedro “Tu sabes que te amo”! O amor nasce e cresce pela convivência de intimidade, o tempo que passamos na presença de Deus faz a diferença. Nós vamos a Ele e Ele vem a nós. Assim como Pedro, somos amados por Deus em nossa condição, sendo nós ainda pecadores, e a partir da contemplação, da oração, da solitude, somos inundados pela graça de Deus, que nos restaura.

2 – Da popularidade ao ministério

A tentação: Ser espetacular
A tarefa: ”Apascenta minhas ovelhas”
A disciplina: Confissão e perdão

Aprendemos nas Escrituras que Jesus não veio dar espetáculos. Seus milagres eram pura misericórdia para com pessoas necessitadas. Nosso conceito de sucesso é muitas vezes determinado pela mídia. Jesus não buscou ser famoso, Ele tinha um ministério e sabia o que estava fazendo. Ele escolheu pessoas que o acompanharam nesta missão. Pastores precisam aprender a conviver, a não se isolarem. A tarefa de apascentar ovelhas é relacional, envolve afetos. Cuidar das ovelhas feridas, cansadas, levá-las para bons pastos e águas tranqüilas é o que faz um bom pastor. Nouwen destaca que muitos pastores gostam de trabalhar sozinhos, tem dificuldade de repartir problemas e soluções com colegas e sentem-se, eles mesmos, cansados e abandonados. São pastores que precisam ser cuidados. Pontua que isto se dá quando pastores aprendem a confessar, eles próprios, suas mazelas. Escreve ele:...”na comunidade cristã, os sacerdotes e ministros são as pessoas que menos confessam os seus erros.” E como Bonhoeffer, ele constata que pela confissão e pelo perdão recupera-se a humanidade, ou seja, a relação não é profissional, mas de ajuda.
Sugerimos que os pastores tenham alguém com quem conversar, e mais especificamente, que tenham um supervisor ou mentor, com os quais seja possível tratar tanto de assuntos pessoais, familiares quanto de questões eclesiásticas.

3 – De líder a liderado

A tentação: Ser poderoso
O desafio: “Outro o conduzirá”
A disciplina: Reflexão Teológica

A tentação de ser dominador, de usar o poder para resolver as questões persegue os pastores. Abrir mão do poder para usar do amor é cansativo e complicado, envolve ser o ser o que serve e não o que é servido. Aprender a conviver com o poder sem se deixar corromper é um exercício a ser vivido diariamente. Nouwen destaca que as pessoas que tem menos intimidade e afeto são as que mais controlam. Ao lembrarmos que Jesus ao ser crucificado abdicou do seu poder nos perguntamos: e quem quer a cruz?!
O desafio de ser conduzido por outro é um lembrete que talvez nem tudo seja como planejamos... talvez Deus nos conduza por outros meios e caminhos.
A disciplina da reflexão teológica é a de pensar com a mente de Cristo. Para ser líder, pastor de uma igreja é preciso aprender a dizer não ao fatalismo, ao desespero, a injustiça à resignação, ter a noção do Kairós frente às dores do mundo.Viver as boas novas da salvação que nos alcança como pessoas, como famílias, como comunidade e sociedade.
Ser liderado por Deus é exercitar seu pastorado pelo encontro com o semelhante, pela oração, pela confissão, pela reflexão teológica. Sem dúvida, é ser inteiro e integrado.

Bibliografia especifica:
O Perfil do Líder Cristão no século XXI. Worship Produções – Americana, SP 1993

Bibliografia geral:

Tournier, Paul – Mitos e Neuroses – Desarmonia da Vida Moderna.
SP, ABU Editora/Ultimato – Viçosa, 2002.
Atiencia, Jorge – Pastorear e ser Pastoreado. Curitiba; Encontro, 2000.
Azevedo, Irland Pereira de – De Pastor para Pastor – Um Testemunho Pessoal
Rio de Janeiro. Julho, 2001.
Boff, Leonardo – Saber Cuidar: Ética do humano – Compaixão pela Terra. Petrópolis; Vozes, 2001.
Hoch, Lothar Carlos (texto avulso) – O Pastor como Pessoa – Uma conversa franca com obreiros e obreiras da ICLB em Joinvile – 20/09/2001.
Yancey, Philip – Maravilhosa Graça – SP; Vida, 2001.
Nouwen, Henri – A volta do filho pródigo – A historia de um retorno para casa – SP; Paulinas, 1997.
Boenhoeffer, Dietrich – Vida em Comunhão – São Leopoldo; Sinodal, 1997.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A SABEDORIA DE NÃO FAZER NADA

Está certo que não devemos nos ver como sábios.
Mas também é certo que devemos viver como sábios.
Ser sábio é viver de um modo feliz diante de nossas características
individuais (algumas sem graça) e diante das situações (desgraçadas algumas)
da nossa vida.
O primeiro degau da sabedoria é, portanto, a humildade.
Só quem sabe que não é sábio busca ser sábio.
Sabedoria não coisa da mente, mas do coração.
O segundo degrau da sabedoria é a atenção, que nos leva a ouvir quem sabe
e a ler o que nos faz subir.
E aí precisamos nos perguntar qual foi a última vez que nos assentamos
ao lado de uma pessoa experiente e desgustamos suas histórias.
O terceiro degrau da sabedoria é -- por estranho que possa parecer -- o ócio.
Há sabedoria em não fazer nada ou só fazer depois de observar, ponderar, calar. Pressa rima com precipitação. Só quando paramos, sabemos quem é Deus.
Só olhando quem Deus é, sabemos quem nós somos. Não por outra razão, a Bíblia diz que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, que, traduzido é:
quem leva Deus a sério.

texto de Israel Belo de Azevedo

sábado, 31 de julho de 2010

Saúde mental, por Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar parapensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa..
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei
> sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz.
Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho De som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade.
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura
especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.
(Rubem Alves)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Alguém escreveu o que eu penso sobre o divórcio ser contagioso!

"Se casais fogem de amigos recém-desquitados, é porque separações e divórcios são contagiosos", escreve Contardo Calligaris, psicanalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 22-07-2010.

Eis o artigo.

Muitos recém-separados se queixam (com razão) de que sua relação com os amigos de antes não é mais a mesma. Não é tanto porque, diante de uma separação ou de um divórcio, os amigos se dividiriam em dois times opostos. Isso é raro.

Mais frequentemente, os casais que eram próximos do casal que se separou tendem a evitar qualquer um dos recém-separados.

Às vezes, os desquitados entendem seu afastamento como uma condenação moral por eles terem se separado. Isso lhes resulta intolerável, vindo de amigos que, em muitos casos, foram confidentes ao longo do drama da separação.

Outras vezes, os desquitados entendem que os casais de amigos, ao se afastarem deles, protegem-se contra alguma tentação erótica. É o cúmulo, eles dizem: se a simples aparição de um desquitado ou de uma desquitada é suficiente para ameaçar o casamento, talvez devessem fazer como a gente, separar-se.
Uma pesquisa recente, de R. McDermott, J. Fowler e N. Christakis, mostra que os casais talvez tenham alguma razão quando decidem fugir dos amigos desquitados, pois separações e divórcios não são apenas dramas privados (que afetam o casal e seus rebentos), mas são também fenômenos coletivos porque, curiosamente, eles são contagiosos.

Os autores da pesquisa usaram o banco de dados de um estudo (originalmente sobre o risco de doença cardíaca) que acompanha a população de Framingham, EUA, desde 1948. Para a segunda geração de pesquisados (5.124 indivíduos), entre outras informações, continuam sendo anotadas, a cada dois anos, as diferentes listas dos que cada um identifica como seus amigos, parentes, vizinhos e colegas.

Obviamente, muitos dos que são indicados nas listas fazem, eles mesmos, parte da amostra da pesquisa.
Recortando os dados, os autores constataram que as chances de um indivíduo se divorciar aumentam em 75% quando ele se relaciona diretamente com alguém que está se divorciando ou acaba de se divorciar. Quando o desquitado está a dois graus de separação (ou seja, é o amigo de um amigo), o efeito é menor, mas permanece: as chances de nosso indivíduo se divorciar aumentam em 33%.

Será que a causa disso seria a ruína que a sedução erótica exercida pelos desquitados levaria ao casamento dos outros? Ou será que os próximos que se divorciam nos parecem mais alegres e nos tentam com a imagem de sua nova vida? Uma leitura atenta da pesquisa permite afinar a explicação.

De fato, o aumento de 75%, que mencionei antes, é a média dos efeitos diferentes produzidos pelo divórcio de amigos, parentes, colegas e vizinhos. Quando o "amigo" de alguém se divorcia, a probabilidade de esse alguém também se divorciar dentro de dois anos aumenta em 147%. E, no caso do divórcio de parentes, colegas e vizinhos, quase nada acontece. Em outras palavras, o "contágio" do divórcio funciona mesmo entre amigos e, fato significativo, numa direção apenas: o divórcio se transmite de quem é identificado como amigo para quem assim o identifica. Explico.

As relações de amizade registradas pela pesquisa são, em grande parte, não recíprocas: os que fulano indica como seus amigos não indicam fulano como amigo deles. Entende-se que muitos identificam como "amigos" não seus reais companheiros de cada dia, mas indivíduos que eles admiram, que eles gostariam que fossem seus amigos.

Esse tipo de "amigo", idealizado (e duvidoso), é sempre o porta-estandarte de nossos devaneios. Se ele se divorciar, será, automaticamente, para nós, o exemplo (tentador) da felicidade livre e solteira à qual receamos ter renunciado.

Pouco importa que, eventualmente, o tal amigo lamente amargamente a solidão; preferiremos pensar que ele está vivendo um de nossos sonhos frustrados. Invejá-lo é a revanche contra o que não dá certo (e sempre há algo que não dá certo) em nosso casamento. Invejá-lo e, quem sabe, querer imitá-lo.

Moral da história. Para preservar seu casamento, não é preciso afastar seus amigos recém-separados. Basta (e é mais saudável) parar de identificar como amigos indivíduos que não incluiriam você na mesma categoria