Resiliência e espiritualidade: caminhos de vivência pessoal, familiar e comunitária e suas implicações para as relações de cuidado.
Por Roseli M. Kühnrich de Oliveira.
Como cuidadores religiosos, psicólogos, educadores, profissionais da área da saúde, entre outras atividades, vivemos a experiência de tentar tornar concreto o cuidado através de ações que materializam este zelo, esta dedicação ou responsabilidade. As relações de cuidado apresentam como pano de fundo o conceito de resiliência que, por sua vez, remete à questão da ética do cuidado.
Nas relações de cuidado vive-se a aceitação das limitações e vulnerabilidades, tanto do cuidador como de quem recebe o cuidado, pois o cuidador faz parte deste processo de interação. Obviamente, destaca-se que o cuidador precisa ser cuidado para poder cuidar. Neste sentido, o mito do “sarador ferido” é paradigmático para as relações de ajuda, como bem destacou Henry Nouwen, lembrando de Quiron, personagem da mitologia grega que mesmo sendo exímio na arte de curar, sofria de uma ferida incurável!
A história da humanidade é repleta de exemplos de resiliência e fé, sendo que a espiritualidade cristocêntrica remete à pessoa de Jesus Cristo, sendo Ele mesmo um Sarador Ferido, “pois pelos seus sofrimentos somos curados” (Is 53:5).
Ao estudar a história recente, pessoas como Dietrich Bonhoeffer, Henri Nouwen, Gandhi, Tereza de Calcutá e muitos outros mostram como a fé, o transcendente e o recurso divino acompanham a conceituação de resiliência.
Lembro, em especial, do reverendo Martin Luther King e do seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, onde, na presença de milhares de pessoas, ele contava o seu sonho de um mundo sem desigualdades. King, pastor batista e doutor em teologia “transformou” sua indignação em mudanças reais, ou seja, superou as adversidades, mudando a história dos negros não somente nos EUA, mas em muitos outros países. Relembrando a todos a mensagem do Evangelho, sua proposta pela paz e contra o preconceito foi feita sem violência. Mesmo tendo sido assassinado, sua luta não foi em vão, pois era um cristão que vivia de forma concreta a teologia que pregava.
Vivemos, nós também, em meio a situações de preconceito, violência, pobreza e dores. A escuta sensível dos cuidadores constitui um importante elemento da resiliência e utiliza recursos como o humor, a arte e a fé.
A conhecida terapeuta familiar Froma Walsch, destaca que a transcendência e espiritualidade estão entre os recursos mais efetivos para a transformação, aprendizagem e crescimento a partir da adversidade.
Winnicott afirmava que somos constituídos como seres humanos a partir da presença do outro, sendo que as primeiras organizações psíquicas do bebê acontecem frente “ao rosto”, a face materna. O cuidador será, neste sentido, equivalente ao rosto materno, pois é a presença de alguém significativo, que testemunha e valida a dor que é expressa e acolhida.
Como psicóloga e, portanto, cuidadora, considero fundamental a possibilidade de que haja uma expressão resiliente.
Considero que a fé, o humor e a criatividade artística somam-se a outros recursos já citados como a família, amigos e etc como formas de expressão resiliente.
Venho prestado mais atenção, nos últimos anos, a manifestações criativas surgidas no atendimento clínico, sejam elas músicas, poemas, pinturas, esculturas, colagens, danças, vídeos, fotos e etc.
Estas manifestações muitas vezes são respostas à provocação, como, por exemplo, de desenhar um sonho ou um texto bíblico.
Ao usar o hemisfério cerebral direito, que é intuitivo, ligado à emoção e produção artística, e não apenas o hemisfério esquerdo, ligado aos aspectos racionais e analíticos, a pessoa vai tomando consciência de si mesma, passando a se ver de maneira nova, mais “congruente”, como diria Rogers.
Lembro de uma jovem mulher que conheci anos atrás. Ela me procurou em meio a um grande sofrimento, sem condições de cuidar de seu bebê. Totalmente descuidada na aparência, ora pulava sem parar, ora deitava-se debaixo das cadeiras do consultório, totalmente em silêncio. Aos poucos, foi aceitando o convite para pintar. Por vezes, ela cantava palavras sem nexo numa melodia triste enquanto usava tintas e pincéis.
A necessidade de medicamento impunha-se e buscamos fazer um acompanhamento integrado: o psiquiatra, seu pastor e eu. Acionamos sua rede de apoio: a família, igreja, amigos. Seu esposo também buscava auxílio e formas resilientes de sobreviver!
Como ela tinha um bom nível intelectual e estava na universidade por ocasião da crise psicótica, aos poucos começou a registrar em seu diário seus pensamentos dissonantes, angústias e medos. Incentivei-a a escrever seus “salmos” como forma de oração, que hora eram de lamentação, hora de esperança. Registrava seu temor de não poder cuidar da família, de nunca mais poder trabalhar ou estudar. Mas o que sempre me chamou a atenção foi sua resiliência. Ela lutava para melhorar e de fato, rescindiu o contrato com a adversidade.
Não faz muito tempo, ela veio me devolver um livro que eu havia lhe emprestado. Observei sua boa aparência e que voltou ao peso normal. Relatou que estava praticando esporte, estudando, trabalhando, cooperava na igreja e pensava ter mais um bebê. Comentou o tempo que estivera em crise, quando não tinha condições nem de fazer a mamadeira de sua filha, e olhando para as cadeiras, disse com bom humor: - “Eu tava mal, hein!”.
Declarou que durante e depois deste período aprendeu, sobretudo, a ser menos preconceituosa e perfeccionista e a se alegrar com as pequenas coisas. Sua fé, que ela achava que havia perdido, havia se fortalecido ao ser exercitada de forma criativa e artística.
Tenho usado recursos da arte em terapia com adolescentes, religiosos/as, e me encanto com a profundidade das suas percepções!
Penso que a arte desde sempre reflete a espiritualidade do ser humano, pois o trabalho criativo é mais que uma forma de superação das adversidades, em essência é herança divina.
Na história da saúde mental do Brasil, registra-se de forma comovente e magistral a atuação da Dra. Nise da Silveira, discípula de Jung e pioneira no tratamento de pacientes psiquiátricos. Nise da Silveira, ao incentivar seus pacientes a pintar, não apenas humanizou o tratamento psiquiátrico, mas principalmente devolveu aos pacientes a dignidade baseada na teoria do afeto: o olhar, a presença do cuidador como aquele que acolhe a produção artística pelo que ela representa para quem a criou. Neste sentido, estas pinturas, tal qual ícones, transcendem e ultrapassam seu objetivo imediato.
Perguntei-me, portanto, como posso efetivamente, ser uma companheira de caminhada, ou, como podemos ser “tutores” de resiliência. Entendo que as situações difíceis que nós, cuidadores, enfrentamos e que nos tornaram resilientes, nos propiciam a empatia, ou talvez mais, a misericórdia que necessariamente deve acompanhar o saber científico. Além disto, como cuidadores somos parte do processo e sentimos em nós mesmos o impacto da dor do outro. Portanto, é necessário que os cuidadores busquem recursos e possibilidades para trabalhar suas próprias dores.
Procuro, nesta ressonância, mostrar que a arte, a espiritualidade, o humor, a música são, entre outros, fatores de resiliência e cuidado.
Como seres humanos, necessitamos acreditar que Alguém “nos vê” e se importa. Precisamos de um Rosto que nos seja familiar e que de alguma forma, dê sentido a nossa vida e nos lembre quem somos.
Ao longo dos séculos, a humanidade tem procurado através da arte sacra, dar visibilidade a este “rosto”. Muitos artistas, utilizando inúmeras técnicas e recursos criativos, buscaram incessantemente, através da arte pictórica, ou na forma de mosaicos, esculturas, etc. retratar o “rosto” , ora sofrido, ora meigo, ora vitorioso ou glorificado, que personifica A Face da Compaixão e que remete ao Cristo como a “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1:15). A arte sacra é, portanto, um registro desta busca, é uma forma de representar Este que simboliza por excelência o cuidado e que, maternalmente, nos constitui como pessoas: Jesus.
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Querida amiga,
ResponderExcluirexcelente texto!
Sensível, acessível e múltiplo como tu. =)
Parabéns pelo blog e que ele tenha uma vida longa e frutífera!
Grata!!
ResponderExcluirEu estou trabalhando na ala de psiquiatria de um hospital e sinto-me impotente diante dos pacientes psicóticos. Sou capelão e pastor evangélico. Como saber se estou servindo como um ajudador ferido?
ResponderExcluirParabéns pelo seu lindo artigo.
Obrigado por me ajudar a compreender que não adianta eu (pastor) ganhar o mundo inteiro e "perder" a minha alma(família,saúde,paz,amigos). É muito bom aceitarmos nossa humanidade, enquanto tantos querem ser deuses. Quero sempre dizer não a sindrome de Listra. Obrigado.
ResponderExcluirObs. sou aluno da pós em aconselhamento e psicologia pastoral, turma 9, campo grande.
Roseli, Estou estudando seu livro 'Cuidando de quem cuida' a fim de contribuir em um curso de Teologia com a disciplina Psicologia Pastoral.
ResponderExcluirBusquei na net. o tema e encontrei o blog. Este texto me acrescentou muito. Quero continuar aprendendo com você.
Rose Elene